A primeira vez que ouvi falar dele foi numa encenação de “A Banda”, na escola. Mas não foi aí que ele me encantou. Foi em trechos na apostila, em que as músicas dele tomavam forma em letras, em palavras, versos, estrofes inteiras. Foi inevitável buscar saber mais do homem conhecido pelo apelido, rodeado de curiosidades (era parente do dicionário?) e que causava asco em muitos alunos em idade escolar. Alvo de minha admiração devido às palavras escritas, Chico Buarque foi me tomando aos poucos com sua melodia e os olhos verdes, muito verdes, Quando me ganhou já era tarde. Eu não era de mais ninguém.
Tive fases de não largar sua discografia, outra de me ouvir cantando, sem mais nem por quê... Fucei na sua história, quis entender bem mais do meu conquistador. Até hoje, não absorvo bem a forma como ele mexe comigo. Mas desisti de elucidações complexas. Assumi a forma de criatura, sem caminho de volta ou indagação.
E por compartilharmos, as três, do mesmo gostar, optamos por sermos várias, mas todas dele.
Lígia, encarregada de dar parabéns.
sábado, 19 de junho de 2010
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Sim, tenho o Prêmio Nobel, e quê?
"Com 63 anos o que se espera que aconteça?" - ... às 4 da tarde. A hora está registrada em vários relógios da casa, em Lanzarote.
"'O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer'. Ela não tinha pena de morrer. Ela tinha medo de já não estar, no futuro, para continuar a ver esse mundo que achava bonito."
Editorial da Agência Carta Maior
"'O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer'. Ela não tinha pena de morrer. Ela tinha medo de já não estar, no futuro, para continuar a ver esse mundo que achava bonito."
Editorial da Agência Carta Maior
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Meu jeito de dizer que te amo* - Dia 12 do que, mesmo?
Hoje a mãe diz que sente muita saudade do pai dela. Eu não sinto saudade, mas tenho boas lembranças, acho que não tanto por ele, mas pelo sítio que lhe pertencia. Lá eu passei aquela boa fase da vida em que tudo se resume a tardes de sol e traquinagens de criança. Quanto ao vô, as imagens da parede das memórias são poucas, mas nítidas. Ele sentado na varanda picando o fumo de corda para desfrutar do próprio cigarro antes do almoço; ele pedindo a algum neto que fosse até a pipa buscar um copo de vinho para tomar enquanto comia; dele sentado embaixo da mangueira depois de ter tirado a sesta.
Lá ele ficava até escurecer com o olhar perdido no campo de milho à frente. Eu lançava teorias ao vento tentando imaginar que diabos aquele vô tanto matutava. Se fosse hoje, eu entenderia o poder que a gente tem de se perder em pensamentos. A vó é viva ainda, tem lá seus oitenta e poucos. Me lembro que no dia do velório do marido ela chorou copiosamente, desconsolada, perdida. Eu não imaginava que depois de tanto tempo ela ainda teria tantas lágrimas pra derramar por aquele homem. Mais difícil ainda era entender a dedicação que lhe destinava - nunca soube se por opção ou obrigação.
O vô sentava-se à mesa quando ela já estava posta e ele era exclusivamente o primeiro a ter a comida no prato. Sim, não disse que ele era sempre o primeiro a servir-se, porque era a vó quem arrumava sua comida. Era ela quem colocava a xícara de café na sua frente e sabia exatamente o ponto do doce que ele gostava. Isso foi assim até os últimos dias, como uma babá que serve, limpa e segura uma criança. Ele nunca teve nenhum problema, a saúde era forte e suas mãos nunca tremeram. Ainda hoje não ousei perguntar à vó se ela fazia isso porque lhe tinha acostumado mal – e, assim, gostava – ou porque ele lhe tinha imposto tacitamente a função.
Me lembrei disso esses dias, quando eu vi uma amiga fazer isso com o namorado. Ela fazia o café pra ele, mecanicamente, serviçalmente, boçalmente. E para ele era natural ela ter esse comportamento e ainda tinha a capacidade de reclamar da casa quando ela estava desarrumada – sendo que ele não tirava nem o prato da mesa depois que comia.
Dizem que nascemos para encontrar o amor, para perdê-lo e, depois, encontrá-lo de novo. Acredito que seja assim, mesmo. Embora tenha convicção que não é por esse fato que será aceitável qualquer companhia. Pode ser que minha vó tenha sido feliz em sua ignorância, geralmente nessa condição as pessoas são mais satisfeitas. Pode ser que a amiga queira isso para si mesma. Com certeza uma companhia é melhor do que a solidão, mas não qualquer uma. A gente queimou sutiã, lutou pelo sufrágio, saiu às ruas, mas tudo isso não foi à toa. Pode ser que tenha ficado mais difícil, que em certos casos equivocados reina a extravagância chula, e que por causa disso se criem esteriótipos. Mas, assim é a história, do velho nasce o novo, pra depois envelhecer e se reinventar. Pode ser que a gente perca o rumo, sinta o vazio da lucidez, procure o amor e não encontre, se confunda, troque os pés pelas mãos e o dia pela noite – pode ser... Porém, me desculpe, Erasmo, “mas antes mal acompanhado do que só” SOMENTE se for em véspera de Natal esperando o trem das onze na estação.
Happy Valentine´s Day!!!
Lola.
Postagem coletiva para o concurso do blog Espaço Aberto.
Lá ele ficava até escurecer com o olhar perdido no campo de milho à frente. Eu lançava teorias ao vento tentando imaginar que diabos aquele vô tanto matutava. Se fosse hoje, eu entenderia o poder que a gente tem de se perder em pensamentos. A vó é viva ainda, tem lá seus oitenta e poucos. Me lembro que no dia do velório do marido ela chorou copiosamente, desconsolada, perdida. Eu não imaginava que depois de tanto tempo ela ainda teria tantas lágrimas pra derramar por aquele homem. Mais difícil ainda era entender a dedicação que lhe destinava - nunca soube se por opção ou obrigação.
O vô sentava-se à mesa quando ela já estava posta e ele era exclusivamente o primeiro a ter a comida no prato. Sim, não disse que ele era sempre o primeiro a servir-se, porque era a vó quem arrumava sua comida. Era ela quem colocava a xícara de café na sua frente e sabia exatamente o ponto do doce que ele gostava. Isso foi assim até os últimos dias, como uma babá que serve, limpa e segura uma criança. Ele nunca teve nenhum problema, a saúde era forte e suas mãos nunca tremeram. Ainda hoje não ousei perguntar à vó se ela fazia isso porque lhe tinha acostumado mal – e, assim, gostava – ou porque ele lhe tinha imposto tacitamente a função.
Me lembrei disso esses dias, quando eu vi uma amiga fazer isso com o namorado. Ela fazia o café pra ele, mecanicamente, serviçalmente, boçalmente. E para ele era natural ela ter esse comportamento e ainda tinha a capacidade de reclamar da casa quando ela estava desarrumada – sendo que ele não tirava nem o prato da mesa depois que comia.
Dizem que nascemos para encontrar o amor, para perdê-lo e, depois, encontrá-lo de novo. Acredito que seja assim, mesmo. Embora tenha convicção que não é por esse fato que será aceitável qualquer companhia. Pode ser que minha vó tenha sido feliz em sua ignorância, geralmente nessa condição as pessoas são mais satisfeitas. Pode ser que a amiga queira isso para si mesma. Com certeza uma companhia é melhor do que a solidão, mas não qualquer uma. A gente queimou sutiã, lutou pelo sufrágio, saiu às ruas, mas tudo isso não foi à toa. Pode ser que tenha ficado mais difícil, que em certos casos equivocados reina a extravagância chula, e que por causa disso se criem esteriótipos. Mas, assim é a história, do velho nasce o novo, pra depois envelhecer e se reinventar. Pode ser que a gente perca o rumo, sinta o vazio da lucidez, procure o amor e não encontre, se confunda, troque os pés pelas mãos e o dia pela noite – pode ser... Porém, me desculpe, Erasmo, “mas antes mal acompanhado do que só” SOMENTE se for em véspera de Natal esperando o trem das onze na estação.
Happy Valentine´s Day!!!
Lola.
Postagem coletiva para o concurso do blog Espaço Aberto.
terça-feira, 1 de junho de 2010
Mas há a vida
Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida,
há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.
Clarice Lispector
que é para ser
intensamente vivida,
há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.
Clarice Lispector
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Depois
Não carregava consigo o título de senhora empolgação. Era uma ingrata, antes de tudo. Sabia-se privilegiada pelo teto, pela comida, pelo estudo, pelos acessos, pela saúde, pelas coisas que lhe davam condições de uma vida boa. Sabia que isso não bastava, porque não era coletivo. A tristeza também fazia parte da sua felicidade, e, por vezes, a última, tímida, aparecia menos que a primeira. Mas, hoje, o dia despontou diferente. Sentiu no vento o ritmo gostoso pra embalar a manhã do sol que emergiu forte. Fechou a porta, saiu de casa, caminhou logo cedo por aquelas ruas que a tinham recebido tempos antes. Num sopro, ouviu o jovem que voltou no lugar do velho. “Se apresse, temos o amanhã para tecer, acho que ele vai ser diferente”, cochichou o moço ao ouvido. “Eu sei, acordei com essa sensação. Tenho que correr, encontrá-lo”. “Encontrar quem?”. “O sentido, o vento me indicou”.
Lola.
Lola.
terça-feira, 18 de maio de 2010
Ela partiu...
Lembrou daquela noite em que tinha a visto pela última vez. Lembrou que o seu toque não foi suave como costumava ser. Num momento de fúria tinha empurrado-a com força para longe de si. Agora, conseguia ver que aquele gesto guardava em si as mágoas que o tempo havia acumulado até o certeiro momento. Fazia muito frio lá fora, a casa estava cheia, as luzes apagadas, os olhares se cruzavam a todo momento, mas eles não conseguiam ler o que a íris estava a dizer. Foi aí que ela se aproximou, começou a falar-lhe ao ouvido, de um jeito manso, querendo arrancar um carinho sequer. Ele lembrou dos últimos fatos transcorridos, a mente resgatou umas verdades arranjadas, mentiras dissimuladas, e a voz suave e mole não lhe convenceu. Ela continuou sibilando ao ouvido, querendo conquistá-lo, fazendo insinuações. Ele não queria se render, sentiu, de repente, um asco e a repulsou pra longe, pegando-a pela cintura e jogando-a em cima das pessoas que estavam perto. O escuro se fez ainda mais, e a única coisa que pôde ver foi o vermelho dos olhos dele. Nada entendeu, nada escutou. Logo depois, num segundo, ele viu a porta balançar, um vulto ligeiramente sair e, dela, apenas um perfume no ar.
Lola
Lola
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Balelas
Do que você gosta? Como assim, do que eu gosto? Ah! Não sei... tô pedindo de forma geral, mas seja específica. Cara, você é estranho. Sou? É, você é muito estranho... Estranho como, explique! Você sempre aparece do nada com essa cara de perdido, mas que sabe muito bem onde quer chegar, só que você não me diz qual o lugar e vai sem mim. Você fica tentando me fazer acreditar nessas palavras que solta ao vento, no entanto, eu sei de coisas que desmentem todas essas chorumelas. Sua mãe me disse que você fala horas com ela ao telefone; comigo, nem mandava mensagem. Ué, mas o que você tá me cobrando, a gente nunca teve nada. É, eu sei que não, então pra que ficar me enchendo com suas conversinhas? Ah, agora eu é que não sei, eu gosto de você, mas... Não precisa falar mais nada, eu já entendi tudo. Entendeu tudo? Nem eu entendo... você e essa sua mania de ficar tentando adivinhar as coisas, de colocar palavras na minha boca. Tá, desculpa! Eu acho que é uma forma de defesa que eu tenho, tentar premeditar os acontecimentos pra não levar nenhum susto. Tudo bem, eu gosto de você mesmo assim. É, você gosta de mim e dos Stooges. Viu, já é alguma coisa. Eu também gosto deles, mas preferia a versão curitibana do Iggy Pop, o Oneide Deedrich... haha... lembra o show que a gente foi? Lembro, a gente ainda não se conhecia direito, eu nem gostava dos caras, mas fui por tua causa. Pois é, naquela época você ainda fazia coisas que me agradavam, me acompanhava nos lugares, não tinha vergonha, demostrava seu afeto publicamente. Eu mudei... É, eu sei que você mudou, mas certas coisas ainda continuam exatamente iguais. É? Como o quê? Como o fato de que mesmo estando com outra pessoa você não perde a oportunidade de olhar pro lado, de flertar com outras meninas, iludir, você nunca tá sozinho, mas uma companhia só não te basta, mesmo se as outras forem platônicas. Você realmente é estranho. E você leva tudo muito a sério, aliás, já disse que sonhei contigo essa noite e que você tá linda hoje. Não disse?! Viu só, fale sério comigo! Não temos mais nada! Aliás, não gosto desse seu tom de dom juan... Nossa, eu nem falei nada nesse sentido. Que sentido? Esse que você tá pensando! Tudo bem, mas daqui pra frente só me faça perguntas sobre o tempo, o trabalho, a família e... ponto! Ah, como você é exagerada. É, sou mesmo. Tá bom, se você quer assim. Quero! Ok, mas posso te pedir uma coisa? Pode! Quero te mostrar um filme que vi hoje, aquele último do Woody Allen, Tudo Pode Dar Certo. Pode? Aham!
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Do que as mulheres gostam? Nossa, acordou inspirado hoje, mas tá atrasado, a Nancy Meyer já fez um filme com esse título há quase uma década. Engraçadinha, tô falando sério, do que vocês gostam, quando tão lá, na hora H, hein? Você já foi mais sutil... Relaxa, hoje é sexta. Tá tranquilo no escritório, pega um café e me conta. Você me vem com cada conversa, por que não para de me atazanar, entre num desses blogs de aconselhamentos e troque uma ideia com outros mancebos. Ah, como você é certinha e cheia de nove horas, tô aqui tentando levar um papo bacana contigo, qual o problema da gente falar sobre isso? Você não é moderninha?! Vamos, mostre que sim e me ajude a te entender, ops, digo... entender vocês. Olha, pra você não ficar falando besteira, vou te dizer... a gente gosta de homens sensíveis, que vão com calma, mas que tenham pegada. Nada de trogloditas apressadinhos. Ihh... vocês e essas conversinhas moles, esses papinhos furados. Ei!!! Calma aí, sabichão. Você me pediu e eu tava respondendo... quer saber, vai dormir!!! Ai, que dodóizinho que você é. Não é isso, mas você que pediu, então por que não escuta? Tá bom, tá bom, continue... Somos como vocês, também queremos sentir prazer, mas é muito mais difícil, mais complexo, mais trabalhoso, por isso que o homem tem que prestar atenção, ter sensibilidade, ser paciente e incisivo. Nossa, falou, falou, falou e não disse nada objetivo. E quem disse que somos objetivas? Ué, tem mulheres que são... É verdade, tem mulheres que são mais fáceis de se entender, mais certeiras, afinal não nascemos de uma única receita. Então fale por você, você que é complicadinha e nhé nhé nhé. Ai, como eu te odeio! Pra uma pergunta evasiva, uma resposta no mesmo tom... Tá, vou ser mais preciso, fale de você. Eu já falei! Posso te dizer uma coisa? Você tem cara de quem usa lingerie branca, com lacinho, mas que... Hahaha, você me mata! Você não sabe nada de mim e... me faz um favor?! Vá trabalhar!!!! Tudo bem, mas, então antes me diga, é preta??
Lola.
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Do que as mulheres gostam? Nossa, acordou inspirado hoje, mas tá atrasado, a Nancy Meyer já fez um filme com esse título há quase uma década. Engraçadinha, tô falando sério, do que vocês gostam, quando tão lá, na hora H, hein? Você já foi mais sutil... Relaxa, hoje é sexta. Tá tranquilo no escritório, pega um café e me conta. Você me vem com cada conversa, por que não para de me atazanar, entre num desses blogs de aconselhamentos e troque uma ideia com outros mancebos. Ah, como você é certinha e cheia de nove horas, tô aqui tentando levar um papo bacana contigo, qual o problema da gente falar sobre isso? Você não é moderninha?! Vamos, mostre que sim e me ajude a te entender, ops, digo... entender vocês. Olha, pra você não ficar falando besteira, vou te dizer... a gente gosta de homens sensíveis, que vão com calma, mas que tenham pegada. Nada de trogloditas apressadinhos. Ihh... vocês e essas conversinhas moles, esses papinhos furados. Ei!!! Calma aí, sabichão. Você me pediu e eu tava respondendo... quer saber, vai dormir!!! Ai, que dodóizinho que você é. Não é isso, mas você que pediu, então por que não escuta? Tá bom, tá bom, continue... Somos como vocês, também queremos sentir prazer, mas é muito mais difícil, mais complexo, mais trabalhoso, por isso que o homem tem que prestar atenção, ter sensibilidade, ser paciente e incisivo. Nossa, falou, falou, falou e não disse nada objetivo. E quem disse que somos objetivas? Ué, tem mulheres que são... É verdade, tem mulheres que são mais fáceis de se entender, mais certeiras, afinal não nascemos de uma única receita. Então fale por você, você que é complicadinha e nhé nhé nhé. Ai, como eu te odeio! Pra uma pergunta evasiva, uma resposta no mesmo tom... Tá, vou ser mais preciso, fale de você. Eu já falei! Posso te dizer uma coisa? Você tem cara de quem usa lingerie branca, com lacinho, mas que... Hahaha, você me mata! Você não sabe nada de mim e... me faz um favor?! Vá trabalhar!!!! Tudo bem, mas, então antes me diga, é preta??
Lola.
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