A forma mais singela para se despedir, em uma conversa virtual, é a palavra beijo. No singular, sem abreviações. Dei para achar essa palavra escrita sensual. Beijo desliza entre as teclas e lida, entre os lábios. Teorizei que quando se manda beijo, o outro deve ser especial. Beijos a gente manda automaticamente, para qualquer um. Beijão merece certo grau de aproximação. Mas beijo, beijo, beijo escrito assim repetidas vezes me provoca, atiça.
Talvez porque a palavra é linda falada. É íntima o suficiente, pronuncia-se inteira, pausadamente. Roça no ouvido. Quem fala beijo deve antes molhar os lábios, para que o som resvale, e o outro a pegue no ar.
O encontro das vogais prolonga a palavra, mas ao mesmo tempo o som final, o do biquinho, a deixa curta. É um termo que me intriga. Talvez porque as palavras sem sinônimo à altura me fazem refletir sobre elas. Ósculo é feio, pegajoso. Ou talvez porque, ao ler um beijo, a gente imagina o locutor. Como ele fala beijo. Como ele beija. E como será além de ouvir, sentir o beijo.
O beijo reticente, necessário em um curto espaço de tempo. O beijo dos delírios de Rodin, o beijo despretensioso, o beijo do encontro e aquele último, o grave, o beijo da despedida. O beijo que, sendo o derradeiro, fica.
Rosa.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
domingo, 22 de novembro de 2009
Referência
Texto citado no texto anterior. Do genial Xico Sá:
A GENTE SE VÊ (O REMIX)(03/11/2009)
Em uma megalópole como SP e outras tantas grandes cidades, haja encontros e desencontros, Sophia querida, alguns não tão graves, acontece, outros infinitamente dolorosos, que nos perturbam os sentidos, que fazem a gente maldizer os céus, os astros, o destino.
Fica tudo na base do “a gente se vê”... E fudeus, adeus!
Não que fosse acontecer um casamento ou algo do gênero a partir daquele encontro, nada disso, mas foram encontros bonitos, fortes, que se acabam ali mesmo, na poeira da estrada, numa tarde fria, em um café da manhã, numa simples despedida sob a neblina na Dutra ou Anchieta.
“A gente se vê.” Pronto, eis a senha para o terror, o “never more”, o nunca mais do corvo do escritor Edgar A. Poe.
A gente se vê. Corta para uma multidão no viaduto do Chá.
A gente se vê. Corta para uma saída de estádio lotado em dia de decisão do campeonato.
A gente se vê. Corta para “onde está Wally”.
Nada mais detestável de ouvir do que essa maldita frase. Logo depois a porta bate e nem por milagre.
Jovens mancebos, evitem essa sentença mais sem graça. Raparigas em flor, esqueçam, esqueçam.
Melhor dizer logo que vai comprar cigarro, o velho king size filtro do abandono. Melhor dizer que vai pra nunca mais. Melhor o silêncio, o telefone na caixa postal, o telefone desligado, o fora da área, a clandestinidade amorosa, o desprezo on the rock´s.
A gente se vê uma ova. Seja homem, troque de palavras, use o código do bom-tom e da decência. A gente se vê é a mãe, ora, ora.
Como canta o Rei, use a inteligência uma vez só, quantos idiotas vivem só...
Esse “a gente se vê” deveria ser proibido por lei. Constar nos artigos constitucionais, ser crime inafiançável no Código Penal.
A gente se vê é pior do que a gente se esbarra por ai. Pior do que deixar ao acaso, que jamais abolirá a saudade, que vira uma questão de azar e sorte.
Melhor dizer logo “foi bom, meu bem, mas não te quero mais”. YO NO TE QUIERO MÁS, como na camiseta mexicana que ganhei de una hermosa chica. Dizer foi bom meu bem e pronto, ficamos por aqui, assim é a vida, sempre mais para curta do que longa-metragem.
A gente se vê é a bobeira-mor dos tempos do amor líquido e do sexo sem compromisso. A gente se vê é a vovozinha, foda-se!
Seja homem, seja mulher, diga na lata.
Não engane a moça, que a moça é fino trato, que não merece desdém.
A fila anda, jogue limpo.
A gente se vê. Corta para uma multidão no show do Morumbi. A gente se vê. A gente se vê. Corta para a multidão no Campo de Marte. A gente se vê. Corta para o formigueiro do Maracanã. A gente se vê. Corta para a São João com a Ipiranga. Corta para a 25 de Março em véspera natalina. A gente se vê. Corta para um engarrafamento gigante na marginal do Tietê...
A gente se vê. Então aproveita e vai olhar se eu estou na esquina!
A GENTE SE VÊ (O REMIX)(03/11/2009)
Em uma megalópole como SP e outras tantas grandes cidades, haja encontros e desencontros, Sophia querida, alguns não tão graves, acontece, outros infinitamente dolorosos, que nos perturbam os sentidos, que fazem a gente maldizer os céus, os astros, o destino.
Fica tudo na base do “a gente se vê”... E fudeus, adeus!
Não que fosse acontecer um casamento ou algo do gênero a partir daquele encontro, nada disso, mas foram encontros bonitos, fortes, que se acabam ali mesmo, na poeira da estrada, numa tarde fria, em um café da manhã, numa simples despedida sob a neblina na Dutra ou Anchieta.
“A gente se vê.” Pronto, eis a senha para o terror, o “never more”, o nunca mais do corvo do escritor Edgar A. Poe.
A gente se vê. Corta para uma multidão no viaduto do Chá.
A gente se vê. Corta para uma saída de estádio lotado em dia de decisão do campeonato.
A gente se vê. Corta para “onde está Wally”.
Nada mais detestável de ouvir do que essa maldita frase. Logo depois a porta bate e nem por milagre.
Jovens mancebos, evitem essa sentença mais sem graça. Raparigas em flor, esqueçam, esqueçam.
Melhor dizer logo que vai comprar cigarro, o velho king size filtro do abandono. Melhor dizer que vai pra nunca mais. Melhor o silêncio, o telefone na caixa postal, o telefone desligado, o fora da área, a clandestinidade amorosa, o desprezo on the rock´s.
A gente se vê uma ova. Seja homem, troque de palavras, use o código do bom-tom e da decência. A gente se vê é a mãe, ora, ora.
Como canta o Rei, use a inteligência uma vez só, quantos idiotas vivem só...
Esse “a gente se vê” deveria ser proibido por lei. Constar nos artigos constitucionais, ser crime inafiançável no Código Penal.
A gente se vê é pior do que a gente se esbarra por ai. Pior do que deixar ao acaso, que jamais abolirá a saudade, que vira uma questão de azar e sorte.
Melhor dizer logo “foi bom, meu bem, mas não te quero mais”. YO NO TE QUIERO MÁS, como na camiseta mexicana que ganhei de una hermosa chica. Dizer foi bom meu bem e pronto, ficamos por aqui, assim é a vida, sempre mais para curta do que longa-metragem.
A gente se vê é a bobeira-mor dos tempos do amor líquido e do sexo sem compromisso. A gente se vê é a vovozinha, foda-se!
Seja homem, seja mulher, diga na lata.
Não engane a moça, que a moça é fino trato, que não merece desdém.
A fila anda, jogue limpo.
A gente se vê. Corta para uma multidão no show do Morumbi. A gente se vê. A gente se vê. Corta para a multidão no Campo de Marte. A gente se vê. Corta para o formigueiro do Maracanã. A gente se vê. Corta para a São João com a Ipiranga. Corta para a 25 de Março em véspera natalina. A gente se vê. Corta para um engarrafamento gigante na marginal do Tietê...
A gente se vê. Então aproveita e vai olhar se eu estou na esquina!
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Post it

Nobres rapazes, não tenham medo de dizer o poderoso NÃO, o “bye, bye, tchau, fui”, o “sai da minha aba”, o “desencana, tô noutra”, o “au revoir”, you know? O sexo feminino não é tão frágil que não possa suportar um adeus. Elas já deram e receberam tantos, e muitos ainda virão nessa vida. Não será o seu que fará desmoronar nada além do que um dia ou dois. Um e-mail efusivo, uma ligação carinhosa, um recado esperto, nada disso significa que elas morram de amores por vocês. Elas podem, sim, “ser legais e não dar mole”. Vamos lá, não se preocupem, elas podem não estar nas suas, e, caso estiverem, entre um não e outro, haverão muitas afirmativas. Por isso, digam, digam sim um NÃO bem gostoso de se ouvir, pelo menos mostra que coragem não é um adjetivo apenas feminino.
Vamos lá, mancebos, sem melindres...
Afinal, como diria o velho Buarque:
"Se acaso me quiseres
Sou dessas mulheres
Que só dizem sim
Por uma coisa à toa
Uma noitada boa
Um cinema, um botequim"
[Inspirado no “A gente se vê”, de o carapuceiro]
Luiza.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Quando a cabeça encosta o travesseiro
[Da série "Quando"]
O peito dói quando a cabeça deita sobre o travesseiro. É lá que borbulha o peso dos sonhos abafados, das palavras não ditas, dos planos no amanhã. Exatamente naquele lugar, voltam as lembranças das letras que o vento leva, dos sentimentos que passam desencontrados, como a lua que cresce e o sol que cai, acabando com o desejo de admirá-los juntos.
Naquela hora em que a cabeça deita e o peito sofre, se faz mil planos, se desenha novas figuras. Lá é que habita a saudade daquele velho corpo, daquela canção mais sabida, da poesia decorada, da ligação prolongada. Daquela posição é que se desenha novas calçadas, se faz prodigiosos planos e se espera o melhor de tudo e de si mesmo.
É quando o corpo parado e a mente louca, viajando, se espera o beijo na testa, o cafuné mexendo os cabelos, a música no ouvido emanada daquela voz doce que sussurra os versos açucarados. Quando o peito dói, a cabeça alcança o travesseiro e a mente viaja, você bastaria do meu lado, sendo sol e lua juntos, na dança mal ensaiada da vida.
Luiza.
O peito dói quando a cabeça deita sobre o travesseiro. É lá que borbulha o peso dos sonhos abafados, das palavras não ditas, dos planos no amanhã. Exatamente naquele lugar, voltam as lembranças das letras que o vento leva, dos sentimentos que passam desencontrados, como a lua que cresce e o sol que cai, acabando com o desejo de admirá-los juntos.
Naquela hora em que a cabeça deita e o peito sofre, se faz mil planos, se desenha novas figuras. Lá é que habita a saudade daquele velho corpo, daquela canção mais sabida, da poesia decorada, da ligação prolongada. Daquela posição é que se desenha novas calçadas, se faz prodigiosos planos e se espera o melhor de tudo e de si mesmo.
É quando o corpo parado e a mente louca, viajando, se espera o beijo na testa, o cafuné mexendo os cabelos, a música no ouvido emanada daquela voz doce que sussurra os versos açucarados. Quando o peito dói, a cabeça alcança o travesseiro e a mente viaja, você bastaria do meu lado, sendo sol e lua juntos, na dança mal ensaiada da vida.
Luiza.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Espírito
“Estou cansada”. A frase foi dita duas vezes no filme de personagens desconhecidas e ao mesmo tempo entrelaçadas. Entrelaçadas estamos todas nós, mulheres, nesse cansaço diário. Sempre acreditei que determinadas palavras têm mais força na boca feminina. Na boca vermelha de batom, na boca carnuda que pede um beijo. Na boca que treme, querendo fugir, na boca que faz bico querendo ficar.
Quando um homem diz: estou cansado, geralmente é físico. Quando é a mulher, mental. Não estou dizendo que são esses os únicos cansaços possíveis, para um e outro. Mas quando uma de nós diz: cansei, é porque cansamos mesmo.
Ando cansada dessa gente que não sabe para onde vai. Cansei de notícias que não me dizem nada. Estou farta de histórias de amores impossíveis, seja pelo sistema, pelo regime patriarcal, pela distância. Chega dessa história de “cada escolha é uma renúncia, isso é a vida” (vá se foder, Chorão).
Quero paz na minha cena.
Rosa.
Quando um homem diz: estou cansado, geralmente é físico. Quando é a mulher, mental. Não estou dizendo que são esses os únicos cansaços possíveis, para um e outro. Mas quando uma de nós diz: cansei, é porque cansamos mesmo.
Ando cansada dessa gente que não sabe para onde vai. Cansei de notícias que não me dizem nada. Estou farta de histórias de amores impossíveis, seja pelo sistema, pelo regime patriarcal, pela distância. Chega dessa história de “cada escolha é uma renúncia, isso é a vida” (vá se foder, Chorão).
Quero paz na minha cena.
Rosa.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Quando eles dizem: “Vamos casar...”
Não que eu tenha algo contra o casamento, pelo contrário, até aprecio a cerimônia, por mais tradicional que ela seja. Acho que reside aí alguma ideia romântica incontida, que por todas as influências externas se incorporam na pele. Além de que, não é apenas o casamento, mas o juntar-se por querer. O estar perto por gostar. Acordar todo dia ao lado de uma pessoa que você escolheu para compartilhar tudo, desde o bafo matinal até as notas musicais tiradas de ouvido no chacoalhar das cobertas.
Mas cá pra nós, está entre as coisas mais estranhas dessa vida a primeira vez que você ouve da boca de queridos amigos a palavra ca-sa-men-to. “É!!! Decidimos que é a hora. Vamos casar nos próximo verão”. “O quê????” - é a única coisa que você consegue expressar, assombro e surpresa, além de um tremendo sentimento de que a vida te atropela, como naqueles instantes em que você está atravessando a rua distraída e de repente ouve uma estrondosa buzina, em um nervoso sinal de alerta. É, amigo, mais um pouco e você já estará estrelando uma comédia à Solteirões Bom de Bico.
O meu primeiro sinal de alerta veio no ano passado, quando pela primeira vez recebi um convite para ser madrinha de casamento. Sim! Que honra... O orgulho inchou o peito e espalhei aos quatro cantos a honraria do glorioso convite. Mas a ficha só caiu na hora em que eu vi o primo entrando de fraque com o sorriso de orelha a orelha admirando a nobre companheira que entrava para ir ao seu encontro. Nem dava para acreditar que aquele era o mesmo que cresceu brincando e se divertindo à custa de tardes na casa da avó com o restante da trupe de crianças unidas pelo mesmo sangue.
É, realmente eles crescem. Tá certo que ultimamente estava rodeada de amigos casais, mas não imaginava o ponto em que a maioria deles estaria se preparando para o enlace. Depois do primo veio a amiga de infância, juntando-se com outro amigo da mesma procedência. Mais tarde a amiga-irmã de escola, com quem até ontem eu trocava papéis de carta e colecionava posters do Guns´n´Roses. Até aí tudo bem, um, dois, três... Mas a lista não parava por aí, era a irmã em busca de apartamento, a outra em fase de cobrar o namorado pela atitude que não vinha, e... opa!!!! Madrinha outra vez?! “Simm, você fez parte da minha vida, não poderia ficar de fora.”
Um dos indicativos do contraditório tempo (amigo e inimigo) que passa, é a somatória de vidas da qual você já fez ou faz parte. Se de um lado vem a alegria de fazer parte de muitas delas, de outro vem a assombrosa constatação da idade. Um convite para o casamento dos melhores amigos é o sinal do encerramento de um ciclo e, consequentemente, início de outro. Esses dias atrás me convidavam para festinhas de aniversário - pão com linguiça, refrigerante e som dos Raimundos. Hoje eles chegam e vêm me dizer: “Vamos casar”...
- “Tudo bem. Só não aceito mais convite para madrinha.”
Luiza.
Mas cá pra nós, está entre as coisas mais estranhas dessa vida a primeira vez que você ouve da boca de queridos amigos a palavra ca-sa-men-to. “É!!! Decidimos que é a hora. Vamos casar nos próximo verão”. “O quê????” - é a única coisa que você consegue expressar, assombro e surpresa, além de um tremendo sentimento de que a vida te atropela, como naqueles instantes em que você está atravessando a rua distraída e de repente ouve uma estrondosa buzina, em um nervoso sinal de alerta. É, amigo, mais um pouco e você já estará estrelando uma comédia à Solteirões Bom de Bico.
O meu primeiro sinal de alerta veio no ano passado, quando pela primeira vez recebi um convite para ser madrinha de casamento. Sim! Que honra... O orgulho inchou o peito e espalhei aos quatro cantos a honraria do glorioso convite. Mas a ficha só caiu na hora em que eu vi o primo entrando de fraque com o sorriso de orelha a orelha admirando a nobre companheira que entrava para ir ao seu encontro. Nem dava para acreditar que aquele era o mesmo que cresceu brincando e se divertindo à custa de tardes na casa da avó com o restante da trupe de crianças unidas pelo mesmo sangue.
É, realmente eles crescem. Tá certo que ultimamente estava rodeada de amigos casais, mas não imaginava o ponto em que a maioria deles estaria se preparando para o enlace. Depois do primo veio a amiga de infância, juntando-se com outro amigo da mesma procedência. Mais tarde a amiga-irmã de escola, com quem até ontem eu trocava papéis de carta e colecionava posters do Guns´n´Roses. Até aí tudo bem, um, dois, três... Mas a lista não parava por aí, era a irmã em busca de apartamento, a outra em fase de cobrar o namorado pela atitude que não vinha, e... opa!!!! Madrinha outra vez?! “Simm, você fez parte da minha vida, não poderia ficar de fora.”
Um dos indicativos do contraditório tempo (amigo e inimigo) que passa, é a somatória de vidas da qual você já fez ou faz parte. Se de um lado vem a alegria de fazer parte de muitas delas, de outro vem a assombrosa constatação da idade. Um convite para o casamento dos melhores amigos é o sinal do encerramento de um ciclo e, consequentemente, início de outro. Esses dias atrás me convidavam para festinhas de aniversário - pão com linguiça, refrigerante e som dos Raimundos. Hoje eles chegam e vêm me dizer: “Vamos casar”...
- “Tudo bem. Só não aceito mais convite para madrinha.”
Luiza.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
“A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.”
Neruda
Naquele ano o inverno estava demorando a passar. Mesmo terminado oficialmente, os dias continuavam fúnebres. Sentada à mesa, no escritório, ela olhava por uma fresta da janela o outro lado da rua, observando a movimentação com o olhar perdido.
Daquele pequeno vão podia ter uma noção do céu acinzentado de uma estação que começara sem vida. Do inverno, gostava do amarelo dos ipês floridos que desabrochavam antes dele acabar, e cujas flores murchas caídas coloriam e recheavam o chão. Mas queria logo o início da estação seguinte, que representava o começo de mais um ano na sua cronológica contagem de existência.
Mesmo tendo nascido dois dias antes do início, ela queria ser primavera, não inverno. Queria ser os pássaros cantando, não os bichos empoleirados protegendo-se do frio. Contudo, o que ainda não tinha percebido é que os dias haviam mudado, e as estações não estavam mais distintamente definidas. Verão e inverno se misturavam, primavera e outono começavam a ficar encabulados. Do outono tinha-se uma certeza, as folhas, apesar de tudo, continuariam a cair. O fato é que dessa nova primavera não sabia o que esperar...
Com a mão sob o queixo, pelo vão da janela, permanecia mirando firme e distraidamente a rua. Naquele momento, num olhar furtivo, avistou um botão rubro que parecia estar numa luta teimosa prestes a desabrochar. A distração acabou de súbito. Foi então que se deu conta de que a primavera havia chegado, mesmo não parecendo.
L.
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