gota cai
cria o clima
ilu-mina
noite fria
que se anima
terça-feira, 10 de maio de 2011
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Into the wild
Dica atrasada (também... por que pressa?)
Existem - pelo menos - dois tipos de pessoas no mundo: as que apenas sobrevivem e as que procuram respostas. O Chris foi atrás das respostas dele, de forma bem ousada, corajosa. Louco? Não sei, mas é interessante o processo de amadurecimento que mostra no filme, dele tentando dar sentido a sua existência. Depois de passar dois anos viajando e ter "conquistado" o Alasca, o protagonista está pronto pra voltar e compartilhar as experiências e descobertas com os seus. É daqueles filmes que fazem a gente pensar nas nossas respostas, ou ainda no início: as perguntas.
Existem - pelo menos - dois tipos de pessoas no mundo: as que apenas sobrevivem e as que procuram respostas. O Chris foi atrás das respostas dele, de forma bem ousada, corajosa. Louco? Não sei, mas é interessante o processo de amadurecimento que mostra no filme, dele tentando dar sentido a sua existência. Depois de passar dois anos viajando e ter "conquistado" o Alasca, o protagonista está pronto pra voltar e compartilhar as experiências e descobertas com os seus. É daqueles filmes que fazem a gente pensar nas nossas respostas, ou ainda no início: as perguntas.
Força
Noite dessas Joana pegou um aforismo no ar. Dessas palavras que às vezes o vento traz e de alguma forma elas se encaixam e fazem algum sentido. A máxima em poucas palavras dizia a Joana que as pessoas, mesmo não sendo fortes, precisam do sentimento de força: para vencer obstáculos, continuar a luta, seguir andando...
- O sentir-se forte é imprescindível. Depois, com o sentimento, a força vai brotando, até que um dia descobrimos o quanto dessa pegada conquistamos e a expelimos pelos poros para deixar a vida seguir, - assoviou o dono das palavras vindas com o vento.
- Quero me embriagar de sentimento e vê-la brotar - disse ela baixinho, e com força.
- O sentir-se forte é imprescindível. Depois, com o sentimento, a força vai brotando, até que um dia descobrimos o quanto dessa pegada conquistamos e a expelimos pelos poros para deixar a vida seguir, - assoviou o dono das palavras vindas com o vento.
- Quero me embriagar de sentimento e vê-la brotar - disse ela baixinho, e com força.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Outro aniversário em branco
Mais um aniversário passou sem que fizéssemos festa. Será isso sinal da idade? Estamos festejando menos para nos esconder ou estamos nos escondendo porque andamos festejando demais? Espero que seja a segunda opção.
Neste ano serei Cristina. Passei tanto tempo ausente do nosso blog, que hoje quando escutei Chico para escolher quem eu seria, quando ele se perguntou por Cristina, tive certeza de que era comigo que falava.
“Será que Cristina volta, será que ela vai gostar
Será que nas horas mais frias das noites vazias não pensa emvoltar?
Será que vem ansiosa, será que vem devagar”
Pretendo voltar. Pretendo me inspirar.
Como prova da minha boa vontade, cito Vinícius de Moraes, que ando lendo em busca de inspiração.
“Amigos, que este ano recém-nato, ao contrário do transacto, lhes chegue de fraldas limpas; e vocês tenham um milhão de coisas boas e possam ver suas pessoas num espelho mais bonito. [...]Pois a verdade é que tudo se renova: bossa velha fica nova, o que eu acho muito bem. Só não renova quem já está com o pé na cova, quem não cria e não desova, quem não gosta de ninguém” – Vinícius de Moraes – Toadinha de Ano Novo.
Beijos
Neste ano serei Cristina. Passei tanto tempo ausente do nosso blog, que hoje quando escutei Chico para escolher quem eu seria, quando ele se perguntou por Cristina, tive certeza de que era comigo que falava.
“Será que Cristina volta, será que ela vai gostar
Será que nas horas mais frias das noites vazias não pensa emvoltar?
Será que vem ansiosa, será que vem devagar”
Pretendo voltar. Pretendo me inspirar.
Como prova da minha boa vontade, cito Vinícius de Moraes, que ando lendo em busca de inspiração.
“Amigos, que este ano recém-nato, ao contrário do transacto, lhes chegue de fraldas limpas; e vocês tenham um milhão de coisas boas e possam ver suas pessoas num espelho mais bonito. [...]Pois a verdade é que tudo se renova: bossa velha fica nova, o que eu acho muito bem. Só não renova quem já está com o pé na cova, quem não cria e não desova, quem não gosta de ninguém” – Vinícius de Moraes – Toadinha de Ano Novo.
Beijos
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Perto dos 30, mas com preocupações adolescentes
- Cedo ou tarde vou ter que contar para a minha mãe que durmo com o meu namorado.
Melhor ela saber por mim do que pelas vizinhas.
- É... A filha virgem não existe mais..hehhee
Mas não se precipite em contar, deixe que as coisas aconteçam...
- Com certeza... Mas não dá para esperar muito. Vai ter que entender nas entrelinhas. Meu pai que é mais ciumento leva esses assuntos mais na boa...
- É... A vida adulta não é fácil, mas é prazerosa! hahahah
Melhor ela saber por mim do que pelas vizinhas.
- É... A filha virgem não existe mais..hehhee
Mas não se precipite em contar, deixe que as coisas aconteçam...
- Com certeza... Mas não dá para esperar muito. Vai ter que entender nas entrelinhas. Meu pai que é mais ciumento leva esses assuntos mais na boa...
- É... A vida adulta não é fácil, mas é prazerosa! hahahah
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Gota
No capítulo de hoje peço desculpas por não ser a Mulher-Maravilha, nem a mulher-Carinhosa, muito menos a Mulher-Perfeita.
Peço perdão por mostrar de menos, por querer de menos, por ser pouco. Peço desculpas, no capítulo de hoje, por não compreender por que você diz que me entende, mas ainda assim exige.
No capítulo de hoje, peço perdão por ser humana, por ser feita de lágrimas, carne e osso e pouco suor e sangue.
Peço perdão por mostrar de menos, por querer de menos, por ser pouco. Peço desculpas, no capítulo de hoje, por não compreender por que você diz que me entende, mas ainda assim exige.
No capítulo de hoje, peço perdão por ser humana, por ser feita de lágrimas, carne e osso e pouco suor e sangue.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Diz que sim
Hoje eu te senti diminuido, cabisbaixo, frustrado. Quem sabe sua frustração seja porque não ficamos trancados num quarto por três dias. Pode ser que nem sempre eu queira ficar trancada três dias em um quarto, mesmo que a companhia seja a melhor de todas, mas não porque eu não te quero, mas porque eu tenho necessidade de ser a outra eu. Aquela que fica de pijama o dia todo, que lava a louça, que limpa a geladeira, que espia a novela, que dá piti por não encontrar o papel onde anotou o telefone, que cozinha mal, que tem medo do julgamento dos outros. Aquela de raiz. Que nunca muda e pode continuar submersa ali, aparecendo de vez em quando, sem precisar ser julgada como aspecto de falsidade. A essência oculta.
Talvez terei necessidade de ficar sozinha, de chorar sem ter que responder o motivo, de me perder em devaneios com o olhar distante sem saber (e sem ter que dizer) o porquê. Um dia, quem sabe, eu precise só de colo, de afago, de solidão. Sem que para isso eu precise te deixar. Nem que para isso eu precise te abandonar num outro quarto, chorar todas as minhas dores, dar risada sozinha, ler um livro, ouvir uma música bem alta. E daí voltar nova, pra você. Pode ser que eu não precise de sexo sempre, porque às vezes eu preciso de você dentro, mas de outra forma. Talvez eu seja louca e é bem provável que continue sendo por um bom tempo. Talvez até pra sempre. Você vai continuar me amando mesmo assim?
Talvez terei necessidade de ficar sozinha, de chorar sem ter que responder o motivo, de me perder em devaneios com o olhar distante sem saber (e sem ter que dizer) o porquê. Um dia, quem sabe, eu precise só de colo, de afago, de solidão. Sem que para isso eu precise te deixar. Nem que para isso eu precise te abandonar num outro quarto, chorar todas as minhas dores, dar risada sozinha, ler um livro, ouvir uma música bem alta. E daí voltar nova, pra você. Pode ser que eu não precise de sexo sempre, porque às vezes eu preciso de você dentro, mas de outra forma. Talvez eu seja louca e é bem provável que continue sendo por um bom tempo. Talvez até pra sempre. Você vai continuar me amando mesmo assim?
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
O silêncio
boca, olhos, ouvido
gestos, falhas, sentidos
o infinito que dura
até o gemido, o descanso.
o silêncio que fica depois,
que se arrasta pelos pêlos
até os fios do cabelo.
eu muda, não é falta
de palavras, é imensidão de
pensamentos
gestos, falhas, sentidos
o infinito que dura
até o gemido, o descanso.
o silêncio que fica depois,
que se arrasta pelos pêlos
até os fios do cabelo.
eu muda, não é falta
de palavras, é imensidão de
pensamentos
terça-feira, 2 de novembro de 2010
No infinito de nós dois
É falar de você, o tempo todo. Encontrar em tudo que eu vivo e em tudo onde vive você, alimentado na minha saudade, um jeito de a gente estar perto. Sem a sua presença, sólida aqui, eu me perco em pensamentos, para que um deles viaje no destino certo e lhe traga. Rezo baixinho, a minha prece com ardor, para que isso logo se acabe.
Eu tento fugir da manhã cinza, nublada e triste, porque ela não nos traduz. O dia gelado e sem cor é como um coração frio e amargo ou como um café que alguém esqueceu de tomar e ficou sobre o balcão. O que eu quero é o aconchego, é o ninho, é a vontade de viver devagarinho, porque de mãos dadas a gente caminha a contemplar e não a cumprir um destino.
É preciso um bocado de saudade, mas não esse carregamento de falta, que vem quase a me matar. Eu nem mais sei quem sou, se sou eu mesma ou o que restou depois que a sua presença me arrebatou. O seu eu te amo não exprime escolha, mas sentença: é você. E embebida no teu colo, não tenho como negar. Sim, sou eu, sou qualquer coisa, seria capaz de me transformar em breu ou em luz, no que te apetece. Sou tijolo, pedra, areia ou vidro, sou água, cimento e cal, é em mim que você pode construir seu lar.
Mas um dia, um dia bem de repente, acordei sem pensar em sou. Penso em somos, seremos, faremos, fugiremos, casaremos, nos amaremos. Sairemos rumo ao último porto, embarcaremos no último barco, trairemos qualquer voz que diga: não vai dar certo. Daremos. A volta, por cima, por baixo. Escaparemos pela brecha, entenderemos o viés do amor como sentimento puro e possível. Essencial.
Seu lugar é aqui dentro. Quando você vai arrendar esse corpo que te pertence e quando o seu corpo meu e o meu corpo seu poderão se unir aliviados pelo fim da procura? Encontrei minha terra, meu chão, meu lar. Anseio agora por viver nele sem hora e dia de acabar.
Eu te amo.
Eu tento fugir da manhã cinza, nublada e triste, porque ela não nos traduz. O dia gelado e sem cor é como um coração frio e amargo ou como um café que alguém esqueceu de tomar e ficou sobre o balcão. O que eu quero é o aconchego, é o ninho, é a vontade de viver devagarinho, porque de mãos dadas a gente caminha a contemplar e não a cumprir um destino.
É preciso um bocado de saudade, mas não esse carregamento de falta, que vem quase a me matar. Eu nem mais sei quem sou, se sou eu mesma ou o que restou depois que a sua presença me arrebatou. O seu eu te amo não exprime escolha, mas sentença: é você. E embebida no teu colo, não tenho como negar. Sim, sou eu, sou qualquer coisa, seria capaz de me transformar em breu ou em luz, no que te apetece. Sou tijolo, pedra, areia ou vidro, sou água, cimento e cal, é em mim que você pode construir seu lar.
Mas um dia, um dia bem de repente, acordei sem pensar em sou. Penso em somos, seremos, faremos, fugiremos, casaremos, nos amaremos. Sairemos rumo ao último porto, embarcaremos no último barco, trairemos qualquer voz que diga: não vai dar certo. Daremos. A volta, por cima, por baixo. Escaparemos pela brecha, entenderemos o viés do amor como sentimento puro e possível. Essencial.
Seu lugar é aqui dentro. Quando você vai arrendar esse corpo que te pertence e quando o seu corpo meu e o meu corpo seu poderão se unir aliviados pelo fim da procura? Encontrei minha terra, meu chão, meu lar. Anseio agora por viver nele sem hora e dia de acabar.
Eu te amo.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Raso, bem raso
Outra primavera se iniciava, mas não haviam muitas flores daquele lado do rio. Deitada no trapiche ela observava a sombra das árvores, que descansavam sobre a água. O céu lembrava aquele quadro que um dia viu num livro de artes, cujo pintor tinha um nome muito estranho para memorizar. Apenas conseguiu lembrar que o nome do quadro tinha a ver com doce, baunilha, talvez... Gostava de ficar assim, como se fizesse parte de um desenho, daquela paisagem pintada numa tela. Estagnada na moldura, conseguia viajar horizonte afora. No walkman tocava uma música antiga, vinda de um fita cassete roubada da mãe. Com letras escritas à mão em tinta azul já meio apagadas, lia-se: Novos Baianos. Tinha parado num trecho de uma das músicas: “vou mostrando como sou e vou sendo como posso”, dizia a canção. Ficou inquieta, porque o professor de filosofia tinha tocado num assunto parecido com o que a letra dizia, em alguma aula passada. Fez um esforço pra puxar lá do fundo o que ele teria dito. Não era boa com o exercício de sistematizar as ideias, ao contrário, elas orbitavam, desenfreadas. De repente viu um joão-de-barro dar um voo rasante, parecia que ia mergulhar, mas num instante foi para longe. Se consciência tivesse, o joão-de-barro saberia que é uma espécie de pássaro que constrói uma vez por ano um ninho com barro úmido e pequeninos gravetos e folhagens. Lá cria seus filhotes, que depois despencam para o mundo. Recordou que o professor tinha falado em consciência, de que éramos os únicos no planeta com a capacidade de planejar e, a partir do nosso esforço, conceber. E de que “o meio nos mudava, assim como nós mudávamos as coisas a nossa volta”. Talvez era isso que a música quisesse dizer, um punhado de coisas fez com nos transformássemos no que somos hoje, e a cada dia vamos sendo, prédio e construtor - ao mesmo tempo. Suspirou. Era muito difícil entender toda aquela explicação de existência, deu play: “jogando meu corpo no mundo, andando por todos os cantos, e pela lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto...”
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Exercitando a cópia (de estilo)
Quem das nobres moçoilas nunca ficou a esperar o amado com um doce esfriando no fogão? A mistura açucarada com gotas de paixão, traduz a esperança de conquistar o mancebo e arrastá-lo consigo na árdua tarefa da sobrevivência.
Ingênua, a moçoila pensa que a vida a dois significa a entrada no paraíso da felicidade, do domingo no parque, da quarta no cinema, dos pés se enroscando debaixo das cobertas.
Desaventurada, não imagina que a paixão enquanto expectativa de momentos felizes, pode significar o seu inferno astral, a sua entrada à sala da angústia e da ânsia, onde o ingresso é o estado de espírito em que se encontra o ser atormentado por incerteza e receio.
Às negas apaixonadas, pobres coitadas, atormentadas pelo ser ou não ser, uma ode à desgraça. Estas perderão a vez, o banco, e o esforço pelo doce cozido. Estas deixarão espaço à caça desenfreada. Corações estão na moda, várias cores e padrões [1].
Ingênua, a moçoila pensa que a vida a dois significa a entrada no paraíso da felicidade, do domingo no parque, da quarta no cinema, dos pés se enroscando debaixo das cobertas.
Desaventurada, não imagina que a paixão enquanto expectativa de momentos felizes, pode significar o seu inferno astral, a sua entrada à sala da angústia e da ânsia, onde o ingresso é o estado de espírito em que se encontra o ser atormentado por incerteza e receio.
Às negas apaixonadas, pobres coitadas, atormentadas pelo ser ou não ser, uma ode à desgraça. Estas perderão a vez, o banco, e o esforço pelo doce cozido. Estas deixarão espaço à caça desenfreada. Corações estão na moda, várias cores e padrões [1].
Queria habitar terra de tufões
Uma palavra é quanto basta
Outubro 13, 2010 por Fundação José Saramago
Quantas vezes, para mudar a vida, precisamos da vida inteira, pensamos tanto, tomamos balanço e hesitamos, depois voltamos ao princípio, tornamos a pensar e a pensar, deslocamo-nos nas calhas do tempo com um movimento circular, como os espojinhos que atravessam o campo levantando poeira, folhas secas, insignificâncias, que para mais não lhes chegam as forças, bem melhor seria vivermos em terra de tufões. Outras vezes uma palavra é quanto basta.
In A Jangada de Pedra, Ed. Caminho, 1986, p. 83
(Selecção de Diego Mesa)
Outros Cadernos de Saramago
Outubro 13, 2010 por Fundação José Saramago
Quantas vezes, para mudar a vida, precisamos da vida inteira, pensamos tanto, tomamos balanço e hesitamos, depois voltamos ao princípio, tornamos a pensar e a pensar, deslocamo-nos nas calhas do tempo com um movimento circular, como os espojinhos que atravessam o campo levantando poeira, folhas secas, insignificâncias, que para mais não lhes chegam as forças, bem melhor seria vivermos em terra de tufões. Outras vezes uma palavra é quanto basta.
In A Jangada de Pedra, Ed. Caminho, 1986, p. 83
(Selecção de Diego Mesa)
Outros Cadernos de Saramago
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Casa vazia
O telefone tocou já era madrugada. A notícia não foi novidade, um dia antes a mãe avisou “fique preparada”. Eu recebi o recado e voltei a dormir profundamente. Na manhã seguinte o despertador tocou às seis, estava ansiosa por partir. Fiz o rito matinal, escolhi uma música, não pela letra, pelo título: duerme, negrita.
Ela não era negra, tinha pele clara. Ela não era avó, era nona. Era católica e gostava de ler revistas. Ela que ensinou os mais variados jogos de cartas, porque nas noites de férias era o passatempo, nosso e dela. Nos levava passear pelas estradas de chão e ensinava a arrancar uns galhos dos arbustos à beira do caminho para nos proteger do sol. Na escola meus amigos ficavam abismados quando eu contava que na casa dela não tinha televisão, apenas um rádio muito antigo.
Ao chegar, meu tio pediu pra que escrevesse uma mensagem pra pôr na única emissora de rádio da cidade, assim ficava mais fácil avisar amigos e parentes. Nessa hora lembrei do aparelho velho e da velha casa rosa. Enquanto dirigia ao encontro da família, lembrei de como eram nossas despedidas depois de passar o final de semana em sua companhia. “Quando vocês vêm de novo?”, perguntava ela antes mesmo de dar o beijo e o abraço. Ao avistar essa cena bateu o aperto no peito que ainda não tinha vindo. O aperto veio por resumir a história na palavra saudade. Aquela que tantas vezes a Nona sentiu, e a que agora nós sentiríamos.
Depois da cerimônia a noite foi de pura nostalgia, uma reunião com os primos e muitas histórias pra relembrar. Na manhã seguinte a família se encontraria lá na casa pra resolver assuntos de protocolo e decidir como as coisas ficariam. As filhas começaram a remexer gavetas, armários e cantos da casa. Tinham a dolorosa tarefa de reunir o que um dia foi da mãe, e agora guardariam os objetos de valor simbólico, pois a casa já não abrigaria ninguém.
De longe observava os movimentos. Aos poucos os filhos foram saindo, levando as lembranças e um pouco da tristeza dividida entre os que ficam. Depois de tudo, o mais ruim foi mirar a casa vazia, após décadas habitada.
Ela não era negra, tinha pele clara. Ela não era avó, era nona. Era católica e gostava de ler revistas. Ela que ensinou os mais variados jogos de cartas, porque nas noites de férias era o passatempo, nosso e dela. Nos levava passear pelas estradas de chão e ensinava a arrancar uns galhos dos arbustos à beira do caminho para nos proteger do sol. Na escola meus amigos ficavam abismados quando eu contava que na casa dela não tinha televisão, apenas um rádio muito antigo.
Ao chegar, meu tio pediu pra que escrevesse uma mensagem pra pôr na única emissora de rádio da cidade, assim ficava mais fácil avisar amigos e parentes. Nessa hora lembrei do aparelho velho e da velha casa rosa. Enquanto dirigia ao encontro da família, lembrei de como eram nossas despedidas depois de passar o final de semana em sua companhia. “Quando vocês vêm de novo?”, perguntava ela antes mesmo de dar o beijo e o abraço. Ao avistar essa cena bateu o aperto no peito que ainda não tinha vindo. O aperto veio por resumir a história na palavra saudade. Aquela que tantas vezes a Nona sentiu, e a que agora nós sentiríamos.
Depois da cerimônia a noite foi de pura nostalgia, uma reunião com os primos e muitas histórias pra relembrar. Na manhã seguinte a família se encontraria lá na casa pra resolver assuntos de protocolo e decidir como as coisas ficariam. As filhas começaram a remexer gavetas, armários e cantos da casa. Tinham a dolorosa tarefa de reunir o que um dia foi da mãe, e agora guardariam os objetos de valor simbólico, pois a casa já não abrigaria ninguém.
De longe observava os movimentos. Aos poucos os filhos foram saindo, levando as lembranças e um pouco da tristeza dividida entre os que ficam. Depois de tudo, o mais ruim foi mirar a casa vazia, após décadas habitada.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Parola
Assisti a um filme em que uma mulher procurava sua palavra. Fiquei pensando na minha. Minha conclusão me satisfez a certo ponto, pelo fim da procura. Mas era triste. A palavra era feia.
Essa história de palavra começou com uma amiga. Falávamos de sentimentos comuns, da eterna insatisfação com o mundo, a vida. Ela resumiu em uma palavra, a sua palavra: angústia. Fiquei procurando a minha. Pensei em apatia, mas não me considero uma pessoa apática, já trouxe cor. Vasculhei minhas entranhas que apontaram: insatisfação. Não, era óbvio demais.
Encontrei minha palavra ontem. Anestesia. É essa a sensação que tenho. Que tudo o que procuro, que os mundos e fundos que movo são apenas para anestesiar. Para aplacar uma dor, que não é, vá lá, uma grande dor, mas é uma coisa que cutuca, aquela dorzinha chata como quando a gente corta o dedo com folha de papel. Arde. Incomoda.
Meus caminhos trilhados me anestesiam, me fazem continuar em pé, mas não curam. (Talvez por isso a sensação de que nunca estou por completo, de que não me entrego, de que não sou eu aquela que sorri na foto, é a anestesia). A dor continua lá, só não se sente.
Hoje decidi abandonar a palavra. Pouco tempo de convivência depois do (in)feliz encontro, eu sei. Mas, como disse, a palavra é feia demais pra mim. Quero a luz do sol, não a luz gelada de hospitais. Quero tremor, risada gostosa, vento na cara, cãibra, cair e levantar, choro compulsivo - se preciso for - quero queimar a cidade e reerguê-la. Basta de xilocaína. É pouco demais pra mim.
Lígia, ausente.
Essa história de palavra começou com uma amiga. Falávamos de sentimentos comuns, da eterna insatisfação com o mundo, a vida. Ela resumiu em uma palavra, a sua palavra: angústia. Fiquei procurando a minha. Pensei em apatia, mas não me considero uma pessoa apática, já trouxe cor. Vasculhei minhas entranhas que apontaram: insatisfação. Não, era óbvio demais.
Encontrei minha palavra ontem. Anestesia. É essa a sensação que tenho. Que tudo o que procuro, que os mundos e fundos que movo são apenas para anestesiar. Para aplacar uma dor, que não é, vá lá, uma grande dor, mas é uma coisa que cutuca, aquela dorzinha chata como quando a gente corta o dedo com folha de papel. Arde. Incomoda.
Meus caminhos trilhados me anestesiam, me fazem continuar em pé, mas não curam. (Talvez por isso a sensação de que nunca estou por completo, de que não me entrego, de que não sou eu aquela que sorri na foto, é a anestesia). A dor continua lá, só não se sente.
Hoje decidi abandonar a palavra. Pouco tempo de convivência depois do (in)feliz encontro, eu sei. Mas, como disse, a palavra é feia demais pra mim. Quero a luz do sol, não a luz gelada de hospitais. Quero tremor, risada gostosa, vento na cara, cãibra, cair e levantar, choro compulsivo - se preciso for - quero queimar a cidade e reerguê-la. Basta de xilocaína. É pouco demais pra mim.
Lígia, ausente.
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Síndrome de novela mexicana
Se você sofre da dor do parto antes mesmo de partir; chora pelo defunto antes dele chegar; dá o fora em si mesma sem nem sequer ter dado uma piscadela para o pretê; despeja, antes de tudo, todos os defeitos para depois falar de suas tremendas qualidades, se achando a pior pessoa do mundo, creio, querida amiga, que o diagnóstico para isso seja a síndrome de novela mexicana. Porque drama é tudo na vida de quem sofre do mal, e o melhor conselho/remédio é receber um belo "você tem que se foder!".
Sim, cara amiga, aquele velho ditado de fim de noite em mesa de boteco que diz que é cagando que se aduba a vida, certamente cabe a estas raparigas. Pois para tudo, que não a morte, dá-se um jeito nessa vida. Geralmente as mulheres que sofrem dessa síndrome tem o subjetivo aguçado, são primorosas cineastas, rodando seus rolos de filmes na cabeça inescrupulosamente explorada, que trabalha muito mais do que as oito horas diárias estabelecidas na CLT.
Para essas marias do bairro, mecedez´s e soraias, nossa súplica: redução da jornada de trabalho já!! A mente precisa relaxar...
Sim, cara amiga, aquele velho ditado de fim de noite em mesa de boteco que diz que é cagando que se aduba a vida, certamente cabe a estas raparigas. Pois para tudo, que não a morte, dá-se um jeito nessa vida. Geralmente as mulheres que sofrem dessa síndrome tem o subjetivo aguçado, são primorosas cineastas, rodando seus rolos de filmes na cabeça inescrupulosamente explorada, que trabalha muito mais do que as oito horas diárias estabelecidas na CLT.
Para essas marias do bairro, mecedez´s e soraias, nossa súplica: redução da jornada de trabalho já!! A mente precisa relaxar...
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Comum
- Sou comum.
- Comum? Como?
- Ah, tipo domingo em família; sábado com filme; feijão com arroz; sofá com tv...
- Humm, bom... hã, então eu já vou indo, prefiro a sexta com amigos.
- Comum? Como?
- Ah, tipo domingo em família; sábado com filme; feijão com arroz; sofá com tv...
- Humm, bom... hã, então eu já vou indo, prefiro a sexta com amigos.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Agosto
Gosto do gosto da boca
Da manhã de saliva com
Gosto de pressa
Da pressa à demora
Na espera do gosto da boca
Da noite encurtada pelo prazer,
do gosto dos corpos
Gosto do frio no início,
E do gosto do suor morno que a brisa leva
Gosto do gosto de gostar
De um acordar leve
De ver na boca o sorriso
Uma manhã
Um gosto de agosto
Que vai acabando
O gosto não sabe se fica
A gosto do tempo que vem
Do mês ficam-se os dias
Na espera da boca
Com gosto de além
Da manhã de saliva com
Gosto de pressa
Da pressa à demora
Na espera do gosto da boca
Da noite encurtada pelo prazer,
do gosto dos corpos
Gosto do frio no início,
E do gosto do suor morno que a brisa leva
Gosto do gosto de gostar
De um acordar leve
De ver na boca o sorriso
Uma manhã
Um gosto de agosto
Que vai acabando
O gosto não sabe se fica
A gosto do tempo que vem
Do mês ficam-se os dias
Na espera da boca
Com gosto de além
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Do ridículo
Que bunda gostosa, ele dizia, e escorregava a mão por dentro da calça apertada. De repente, parou numa curva, um pouco abaixo da cintura. O que é isso? - perguntou. Estria!! - respondeu ela com a pele ruborizada. Não, parece que você tomou uma injeção. Em segundos, a mulher passou do rubro do espanto ao vermelho da vergonha e lembrou: Ah! Foi meu anticoncepcional... - e disfarçou com uma gargalhada. O homem riu ainda mais. Tinha que ver a tua cara de horror na hora em que falei. Pois é, e eu que pensei ser tão moderninha, não ligar pra essas tolices... Acho que, no limite, estria e celulite estão na mesma escala que a idade, quanto mais se tem, mais se quer esconder.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Síndrome da depressão instantânea
- O que você tem?
- Como assim? Nada, uai!
- Então porque tá com essa cara, tá brava comigo?
- Brava com você? Não!! Com que cara eu tô?
- Essa cara de poucos amigos, tá cansada?
- É... tô cansada, só... às vezes eu fico assim.
- Assim como?
- Acometida de nada.
Lola.
- Como assim? Nada, uai!
- Então porque tá com essa cara, tá brava comigo?
- Brava com você? Não!! Com que cara eu tô?
- Essa cara de poucos amigos, tá cansada?
- É... tô cansada, só... às vezes eu fico assim.
- Assim como?
- Acometida de nada.
Lola.
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