segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Fulana de tal, no mundo real...


"Tudo quanto fazemos, na arte ou na vida, é a cópia imperfeita do que pensámos em fazer. Desdiz não só da perfeição externa, senão da perfeição interna; falha não só à regra do que deveria ser, senão à regra do que julgávamos que poderia ser. Somos ocos não só por dentro, senão também por fora, párias da antecipação e da promessa." Fernando Pessoa

Desde pequena Carolina pensava como seria sua vida adulta, podem me dizer que isso é comum entre todas as pessoas, mas, por outro lado, posso dizer que ela sonhava demais, e demasiadamente sonhando levava seus pensamentos às alturas. Imaginava o par perfeito, no lugar e no tempo exato - e de quebra com a trilha sonora que tocava na única rádio da cidade vizinha, considerando ser a perfeita.

Sonhava com o emprego em que seria reconhecida como grande profissional. Sendo grande profissional imaginava a casa modesta, não era de luxo. Modesta, mas só dela. Sim, adorava pensar que seria independente como certas mulheres que via em filmes ou novelas baratas.
Algumas vezes, Carolina se pegava aos prantos na janela olhando o infinito e escutando aquela música – aquela perfeita da rádio – e o momento em que estaria descendo uma escada e pulando nos braços daquele menino por quem escondia paixão platônica, como de costume.

Seu sonho sempre foi ver colado na testa das pessoas uma plaquinha, tipo um letreiro eletrônico, onde constaria o que cada pessoa achava sobre a menina Carolina. Cada detalhe, cada adjetivo. Para os de fora, percepção óbvia do que viria a ser sua extrema preocupação pelo que os outros pensavam dela – pobre criatura.

Um dia Carolina leu em qualquer canto que as pessoas que sonhavam demais eram medíocres, pois não viam na sua própria volta o que as cercava e que poderia ser tão bom quanto os sonhos. Mas aí já era tarde, Carolina sonhava, e depois de cada sonho vinha a frustração de não realiza-lo, ou pior, de achar que poderia fazê-lo sempre de forma diferente com aquilo que acontecia.

Mas não era culpa dela, afinal, quem ensinou Carolina a viver sonhando e perder a vida nos sonhos? Naquela altura ela não sabia mais, estava envolta em coisas que não tinha se dado conta que havia feito, e nem até onde tinha chegado, porque ela nunca esteve lá... e nem cá. Ela era apenas mais uma fulana de tal, perdida no mundo real. Era aquela Carolina que continuava esperando na janela.


Ps. Depois de longo período distante,

Carolina, como sempre, a do Chico.

5 comentários:

Mulheres de Atenas disse...

Eu também sou Carolina. ;/
Não me venha dizer que vc não sabe escrever. O texto ficou ótimo. Um conto triste, mas real.
Beijos, Bia

Alice Cristina disse...

Adorei "Carolina"
Beijos e saudades fulana de tal do mundo real!

Mulheres de Atenas disse...

E quem não pensa no que vai ser quando crescer? O pior é quando já crescemos e ainda não somos grandes.... (Sentiu o azedume?rs)
Sobre o que as pessoas pensam, eu sempre digo que se eu pudesse ter um super poder, eu gostaria de poder ler pensamentos... fico pensando se isso seria maravilhoso ou extremamente ruim...
Bjs,
Helena

EU disse...

nada é por acaso mesmo....justo carolina...eu e minhas carolinas...adorei odiei...kiss

Euzer Lopes disse...

Tem horas que os sonhos são mais altos que os galhos das árvores que suportam o peso da gente.
Fazer o que? Esperar o galho crescer, junto com a árvore, para que ela fique mais próxima do sonho, ou tentar equilibrar-se para alcançá-lo.
Carolinas existem aos montes.
Carolinas que alcança sua luxuosa vida "modesta", poucas.
Carolinas continuarão a existir.
E seus sonhos continuarão a fazer as Carolinas se sentirem vivas!