segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Diz que sim

Hoje eu te senti diminuido, cabisbaixo, frustrado. Quem sabe sua frustração seja porque não ficamos trancados num quarto por três dias. Pode ser que nem sempre eu queira ficar trancada três dias em um quarto, mesmo que a companhia seja a melhor de todas, mas não porque eu não te quero, mas porque eu tenho necessidade de ser a outra eu. Aquela que fica de pijama o dia todo, que lava a louça, que limpa a geladeira, que espia a novela, que dá piti por não encontrar o papel onde anotou o telefone, que cozinha mal, que tem medo do julgamento dos outros. Aquela de raiz. Que nunca muda e pode continuar submersa ali, aparecendo de vez em quando, sem precisar ser julgada como aspecto de falsidade. A essência oculta.
Talvez terei necessidade de ficar sozinha, de chorar sem ter que responder o motivo, de me perder em devaneios com o olhar distante sem saber (e sem ter que dizer) o porquê. Um dia, quem sabe, eu precise só de colo, de afago, de solidão. Sem que para isso eu precise te deixar. Nem que para isso eu precise te abandonar num outro quarto, chorar todas as minhas dores, dar risada sozinha, ler um livro, ouvir uma música bem alta. E daí voltar nova, pra você. Pode ser que eu não precise de sexo sempre, porque às vezes eu preciso de você dentro, mas de outra forma. Talvez eu seja louca e é bem provável que continue sendo por um bom tempo. Talvez até pra sempre. Você vai continuar me amando mesmo assim?

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O silêncio

boca, olhos, ouvido
gestos, falhas, sentidos
o infinito que dura
até o gemido, o descanso.
o silêncio que fica depois,

que se arrasta pelos pêlos
até os fios do cabelo.
eu muda, não é falta
de palavras, é imensidão de
pensamentos

terça-feira, 2 de novembro de 2010

No infinito de nós dois

É falar de você, o tempo todo. Encontrar em tudo que eu vivo e em tudo onde vive você, alimentado na minha saudade, um jeito de a gente estar perto. Sem a sua presença, sólida aqui, eu me perco em pensamentos, para que um deles viaje no destino certo e lhe traga. Rezo baixinho, a minha prece com ardor, para que isso logo se acabe.
Eu tento fugir da manhã cinza, nublada e triste, porque ela não nos traduz. O dia gelado e sem cor é como um coração frio e amargo ou como um café que alguém esqueceu de tomar e ficou sobre o balcão. O que eu quero é o aconchego, é o ninho, é a vontade de viver devagarinho, porque de mãos dadas a gente caminha a contemplar e não a cumprir um destino.
É preciso um bocado de saudade, mas não esse carregamento de falta, que vem quase a me matar. Eu nem mais sei quem sou, se sou eu mesma ou o que restou depois que a sua presença me arrebatou. O seu eu te amo não exprime escolha, mas sentença: é você. E embebida no teu colo, não tenho como negar. Sim, sou eu, sou qualquer coisa, seria capaz de me transformar em breu ou em luz, no que te apetece. Sou tijolo, pedra, areia ou vidro, sou água, cimento e cal, é em mim que você pode construir seu lar.
Mas um dia, um dia bem de repente, acordei sem pensar em sou. Penso em somos, seremos, faremos, fugiremos, casaremos, nos amaremos. Sairemos rumo ao último porto, embarcaremos no último barco, trairemos qualquer voz que diga: não vai dar certo. Daremos. A volta, por cima, por baixo. Escaparemos pela brecha, entenderemos o viés do amor como sentimento puro e possível. Essencial.
Seu lugar é aqui dentro. Quando você vai arrendar esse corpo que te pertence e quando o seu corpo meu e o meu corpo seu poderão se unir aliviados pelo fim da procura? Encontrei minha terra, meu chão, meu lar. Anseio agora por viver nele sem hora e dia de acabar.

Eu te amo.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Raso, bem raso

Outra primavera se iniciava, mas não haviam muitas flores daquele lado do rio. Deitada no trapiche ela observava a sombra das árvores, que descansavam sobre a água. O céu lembrava aquele quadro que um dia viu num livro de artes, cujo pintor tinha um nome muito estranho para memorizar. Apenas conseguiu lembrar que o nome do quadro tinha a ver com doce, baunilha, talvez... Gostava de ficar assim, como se fizesse parte de um desenho, daquela paisagem pintada numa tela. Estagnada na moldura, conseguia viajar horizonte afora. No walkman tocava uma música antiga, vinda de um fita cassete roubada da mãe. Com letras escritas à mão em tinta azul já meio apagadas, lia-se: Novos Baianos. Tinha parado num trecho de uma das músicas: “vou mostrando como sou e vou sendo como posso”, dizia a canção. Ficou inquieta, porque o professor de filosofia tinha tocado num assunto parecido com o que a letra dizia, em alguma aula passada. Fez um esforço pra puxar lá do fundo o que ele teria dito. Não era boa com o exercício de sistematizar as ideias, ao contrário, elas orbitavam, desenfreadas. De repente viu um joão-de-barro dar um voo rasante, parecia que ia mergulhar, mas num instante foi para longe. Se consciência tivesse, o joão-de-barro saberia que é uma espécie de pássaro que constrói uma vez por ano um ninho com barro úmido e pequeninos gravetos e folhagens. Lá cria seus filhotes, que depois despencam para o mundo. Recordou que o professor tinha falado em consciência, de que éramos os únicos no planeta com a capacidade de planejar e, a partir do nosso esforço, conceber. E de que “o meio nos mudava, assim como nós mudávamos as coisas a nossa volta”. Talvez era isso que a música quisesse dizer, um punhado de coisas fez com nos transformássemos no que somos hoje, e a cada dia vamos sendo, prédio e construtor - ao mesmo tempo. Suspirou. Era muito difícil entender toda aquela explicação de existência, deu play: “jogando meu corpo no mundo, andando por todos os cantos, e pela lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto...”

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Exercitando a cópia (de estilo)

Quem das nobres moçoilas nunca ficou a esperar o amado com um doce esfriando no fogão? A mistura açucarada com gotas de paixão, traduz a esperança de conquistar o mancebo e arrastá-lo consigo na árdua tarefa da sobrevivência.

Ingênua, a moçoila pensa que a vida a dois significa a entrada no paraíso da felicidade, do domingo no parque, da quarta no cinema, dos pés se enroscando debaixo das cobertas.

Desaventurada, não imagina que a paixão enquanto expectativa de momentos felizes, pode significar o seu inferno astral, a sua entrada à sala da angústia e da ânsia, onde o ingresso é o estado de espírito em que se encontra o ser atormentado por incerteza e receio.

Às negas apaixonadas, pobres coitadas, atormentadas pelo ser ou não ser, uma ode à desgraça. Estas perderão a vez, o banco, e o esforço pelo doce cozido. Estas deixarão espaço à caça desenfreada. Corações estão na moda, várias cores e padrões [1].

Queria habitar terra de tufões

Uma palavra é quanto basta
Outubro 13, 2010 por Fundação José Saramago

Quantas vezes, para mudar a vida, precisamos da vida inteira, pensamos tanto, tomamos balanço e hesitamos, depois voltamos ao princípio, tornamos a pensar e a pensar, deslocamo-nos nas calhas do tempo com um movimento circular, como os espojinhos que atravessam o campo levantando poeira, folhas secas, insignificâncias, que para mais não lhes chegam as forças, bem melhor seria vivermos em terra de tufões. Outras vezes uma palavra é quanto basta.

In A Jangada de Pedra, Ed. Caminho, 1986, p. 83
(Selecção de Diego Mesa)

Outros Cadernos de Saramago

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Casa vazia

O telefone tocou já era madrugada. A notícia não foi novidade, um dia antes a mãe avisou “fique preparada”. Eu recebi o recado e voltei a dormir profundamente. Na manhã seguinte o despertador tocou às seis, estava ansiosa por partir. Fiz o rito matinal, escolhi uma música, não pela letra, pelo título: duerme, negrita.

Ela não era negra, tinha pele clara. Ela não era avó, era nona. Era católica e gostava de ler revistas. Ela que ensinou os mais variados jogos de cartas, porque nas noites de férias era o passatempo, nosso e dela. Nos levava passear pelas estradas de chão e ensinava a arrancar uns galhos dos arbustos à beira do caminho para nos proteger do sol. Na escola meus amigos ficavam abismados quando eu contava que na casa dela não tinha televisão, apenas um rádio muito antigo.

Ao chegar, meu tio pediu pra que escrevesse uma mensagem pra pôr na única emissora de rádio da cidade, assim ficava mais fácil avisar amigos e parentes. Nessa hora lembrei do aparelho velho e da velha casa rosa. Enquanto dirigia ao encontro da família, lembrei de como eram nossas despedidas depois de passar o final de semana em sua companhia. “Quando vocês vêm de novo?”, perguntava ela antes mesmo de dar o beijo e o abraço. Ao avistar essa cena bateu o aperto no peito que ainda não tinha vindo. O aperto veio por resumir a história na palavra saudade. Aquela que tantas vezes a Nona sentiu, e a que agora nós sentiríamos.

Depois da cerimônia a noite foi de pura nostalgia, uma reunião com os primos e muitas histórias pra relembrar. Na manhã seguinte a família se encontraria lá na casa pra resolver assuntos de protocolo e decidir como as coisas ficariam. As filhas começaram a remexer gavetas, armários e cantos da casa. Tinham a dolorosa tarefa de reunir o que um dia foi da mãe, e agora guardariam os objetos de valor simbólico, pois a casa já não abrigaria ninguém.

De longe observava os movimentos. Aos poucos os filhos foram saindo, levando as lembranças e um pouco da tristeza dividida entre os que ficam. Depois de tudo, o mais ruim foi mirar a casa vazia, após décadas habitada.