segunda-feira, 13 de abril de 2009

Estado civil: solteira, cansada de procurar

Eu posso até ser uma Mulher de Atenas (ou Athenas), cheia de prerrogativas que me fazem bradar aos quatro ventos: sou autossuficiente. Eu me divirto, toda sexta e sábado (ou em apenas em um dos dois, salvo decisão ou falta de vontade da própria), eu me sustento, eu não devo satisfações para ninguém. Eu sou inteligente, não caio em conversa mole, pago minhas contas, faço meu supermercado, limpo a minha sujeira, sei cozinhar quando dá vontade, sem precisar me valer disso para arrumar marido.
Toda Mulher de Atenas que se preze se orgulha de todas essas coisas. Mas, porém, entretanto, contudo, todavia, todas nós guardamos um profundo (e sendo profundo está escondido, mas borbulhante) sentimento de inveja e raiva total em relação a mulheres que são casadinhas, namoradinhas, enfim, as que possuem seus amantes que batem cartão toda sexta, sábado, domingo, segunda, terça, quarta e, pasme!, até quinta-feira. Embora esse sentimento se travista de desprezo e até conversinhas venenosas quando as Mulheres de Athenas se reúnem para comentar: veja como ela se anula! Eu não faria isso por homem nenhum! Como ela pode estar com um cara desses? As duas mulheres que acabaram de travar o diálogo supracitado estão, sim estão, se roendo por dentro.
E chega uma hora que elas cansam de posar de moderninha solteiraça, mas também desistem de procurar. Chega um momento em que aparece um sabadão, com um ar quente que sopra do Sul carregado de promessas (tanto de você estrear sua novíssima blusa que você já comprou com más intenções, como para você encontrar o amor da sua vida) e você não se vê com nenhumíssima vontade de sair de casa. Não, a animação não vai chegar ao longo da noite. Só de pensar em passar o rímel você já boceja. Seu sofá nunca pareceu tão confortável. Você arregala o olho para a propaganda do Altas Horas e pensa: Nóóóssa, o Serginho Groismann ainda não morreu? Hey, essa banda que vai tocar no programa parece ser legal, acho que a balada ficará para a próxima.
Apesar de sua mãe vim medir sua temperatura, é perfeitamente normal que uma moça casadoira, na idade reprodutiva, no auge da empolgação, com o próprio dinheiro para gastar, diga um dia: Não, não quero sair. Ficarei em casa, curtindo a minha fossa, que não se refere a um fora recente ou a uma dor passageira, mas a fossa de toda uma vida sozinha, mal amada, sem expectativa de sair dessa condição de protótipo de Mulher Maravilha do século XXI e juntar seus trapos com um cara que nem precisa ser músico, ter barba por fazer e já ter lido Fernando Pessoa.
Fugindo da dança do acasalamento, das cervejas e das tequilas despejadas goela dentro, dos olhares não correspondidos, das cantadas dos bêbados, da vontade de morrer, dorme uma moça na noite de sábado. E antes de pegar no sono no sofá da sala, ela pensa que o problema não é que esteja procurando no lugar errado. Procurar se procura a vida inteira. Mas há momentos em que apenas o que uma mulher quer é ser encontrada. Ser pega no colo e colocada para dormir. Assim, à moda antiga.

6 comentários:

Mulheres de Atenas disse...

Quando leio um texto assim sempre tenho aquele suspiro de alívio dizendo: 'não sou a única!'.
No sábado eu saí, tomei tequila pela primeira vez e vesti aquela blusa que comprei com décimas intenções... E não fui encontrada... Nem ao menos procurei... Cheguei em casa a tempo de pegar o final do Altas Horas e o desenho American Dad, que só agora descobri nas madrugadas de sábado...
Além de todas as outras coisas que preciso fazer e encontrar, está o próximo texto do blog... E um ponto final para parar com estas reticências.
Terezinha

Não Enviadas disse...

O problema das mulheres de Atenas ou qualquer outra mulher que, assim como eu, aprendeu em casa ou na rua o valor de ser independente é que não queremos só ser independentes. Queremos sempre mais e o mais cada vez fica mais distante de ser suficiente. A gente quer não precisar de ninguém, mas queremos ser admiradas por alguém que também não precise da gente. Queremos liberdade e rédeas. Queremos tanta coisa que acabamos não querendo nada com nada. Aí mesclamos momentos de excesso de confiança, com outros de excesso de carência. Momentos de euforia com outros de melancolia.

Mas pense: as pessoas mais interessantes do mundo, são contradições ambulantes.

;)

CamilaRufine

Sopa das Letras disse...

Não faltou verdade em tudo que foi dito, mas não se pode se deixar levar pela lógica e a linearidade de um momento da vida. Isso acontece, a solidão aparece e pode desaparecer. Infelizmente seria sempre uma mágica incrível ser encontrada pela pessoa ideal e levar uma vida de constante contentamento. Porém, como a vida não é esse mar de contentamento, nos basta respirar, seguir a diante e torcer muito para que não nos deparemos com o Serginho Grosman na tv.

Abraços, beijos e queijos!
Estou de volto com o Sopa das Letras!!!

Rita disse...

Queimamos sutiãs, arrumoas trampo, nos formamos, mas o q queremos afinal? Só as Mulheres de Athenas sabem - hahahaha - sabem?

Mulheres de Atenas disse...

A Rita resumiu tuuuudo!!! Sabemos?

Luiza

Leonardo Handa - A vida não vale um fiat 147 disse...

Olá pessoas. Obrigado pela visita ao meu blog e atenção em terem percebido a minha presença em textos sobre música no Diário do Sudoeste. Espero que estejam gostando.
Muito bacana a proposta do blog de vocês, quero degustá-lo mais vezes.
Uma semana incrível a todas.