domingo, 14 de setembro de 2008

Com a licença poética...

Martina e Claudia

Martina e Claudia costumavam dizer que eram infinitamente amigas. Colegas de faculdade, encontravam-se sete dias por semana. Sabiam tudo uma da outra, desde a aquisição de calcinhas novas às crises familiares. Davam-se bem, além de tudo, porque adoravam conversar e beber juntas. Noites de sábado repletas de vinho e fofocas. Para quê homens, infantis, estúpidos e entendiantes, quando se tem grandes amigas?
Claro que nas devidas proporções. Não eram lésbicas, afinal, havia nos homens uma peça fundamental da qual só eles dispunham. E às vezes iam a festas, nas quais dividiam ainda mais histórias. Na metade da noite cansavam-se das rodadas de tequila, paravam no balcão e observavam a festa com rigor acadêmico. Era sua maior diversão. Aos seus olhos, os passos de funk tornavam-se ritos coreografados da dança do acasalamento, os caras que perseguiam as mulheres eram machos predadores. E Martina e Claudia se recusavam a desfilar como se estivessem na vitrine de um açougue, para serem aprovadas ou não por exemplares nada exímios do sexo oposto. As noites acabavam mais cedo, mas sempre havia muita gargalhada para passarem o domingo.
Tinham tido pouco amores para rechear o currículo. Martina dizia que todas as suas histórias de amor juntas não davam um curta-metragem. Claudia tinha uns amores aqui, outros acolá, mas sempre desprezíveis. No terceiro encontro, via que não dava mais. No início da faculdade, ela e um colega tinham feito a babaquice de trocar uns beijos. O irmão havia lhe aconselhado: nunca, jamais, fique com colegas de faculdade. Ou vira namoro ou vira um estorvo para quem você tem que olhar na cara pelos quatro anos.
Aurélio era baixinho, metido a besta e tinha um sotaque mineiro misturado com um paulista arrastado que não atraía Claudia de maneira nenhuma. Mas enredaram-se numa história cheia de idas e vindas, sem ninguém se assumir, com direito a copos de cerveja na cara, declarações públicas de ódio recíproco, provocações de ciúmes e até uma trágica festa de aniversário dela, em que ele beijou outra, para protesto de todos os amigos presentes.
Tapas e beijos que duraram anos. Para ela, restou o asco. Achava que a recíproca era verdadeira, até que descobriu, no fim do quarto ano, que Aurélio nutria um sentimento mais profundo. Ele achava que Claudia era a mulher da sua vida.
Ela sabia disso porque Martina lhe contou. Era para ela que ele declarou, depois de umas rodadas de chopp, que não conseguia esquecer a “garota cheia de nove horas”, como ele se referia a Claudia, que nem deu ouvidos para a história que a outra lhe contava. Pelo contrário, dava gargalhadas.
Sem os encontros presenciais da faculdade, o sentimento virou pó. Foi só numa noite de sábado, dois anos depois de formadas, regadas a vinho do Porto, que o fantasma de Aurélio apareceu, para minar a irmandade das amigas.
- Esse cara do filme me lembra o Aurélio... disse, sonolenta, Claudia.
- Nossa, o Aurélio. Há quanto tempo a gente não fala o nome dele. - respondeu Martina.
- Graças ao bom Deus!
Depois das gargalhadas habituais, Martina coçou os olhos e falou, assim, como quem conta uma história corriqueira:
- Ainda lembro dele se lamentando comigo. Tinha uma época que ele aparecia na minha casa todo dia, um dia até chorou. Eu o proibi um monte de vezes de ligar na sua casa ou de chegar para falar com você nas festas. Ele falava que não conseguia viver sem você. Que queria te ligar, aparecer na sua casa de madrugada, que acordava à noite aflito sem dormir e só você vinha na mente dele. - riu.
A outra ficou em um longo silêncio. Depois, virou para a amiga e perguntou firme:
- E por que você nunca me falou isso?
- Isso, o quê? Claro que falei, boba. Disse um par de vezes!
- Não disse não! Você disse que um dia ele, bêbado, veio se queixar. Essa história de ir na sua casa, todo dia, de não conseguir dormir sem mim, isso você nunca havia falado!
- Ah, você não ia dar bola mesmo... Eu disse para ele desencanar.
- O quê? E agora você quer decidir as coisas por mim? Em um caso desses é comum a gente pelo menos contar para a pessoa, para pelo menos ela saber o que acha e aí então tomar uma decisão! Se eu não queria nada com ele, era meu direito dizer isso para ele! Mas peraí... Só pode ter uma explicação. Você me contaria tudo, como sempre faz, a menos...
- A menos que o quê, Claudia?
- A menos que você fosse apaixonada pelo Aurélio, Martina! Você era?
A outra não respondeu. Ficou em silêncio, desviando o olhar da amiga.
Claudia apanhou as coisas e saiu. Nunca mais se viram, nunca mais trocaram uma palavra.

da inspirada por uma conversa das Mulheres em uma madrugada de sábado, Beatriz

8 comentários:

Mulheres de Atenas disse...

Conheci Martina... acho que elas não se falam mais não pelo amor que uma viveu e a outra não, mas pela dúvida... ela nunca pensou isso, mas eu penso por ela: talvez se Martina tivesse amado Aurélio, pudesse também ter amado muitos outros... Afinal, dizem que é com os amigos que as coisas começam... Mas não é culpa de Aurélio nem de Claudia e nem mesmo de Martina...

Isso mereceria um brinde se estivessemos num boteco, mesas de plástico e copos de requeijão...

Mulheres de Atenas disse...

como eu disse à vcs, nessa história está faltando a Angelina, quem sabe ela poderia entrar na história como a peça chave, que tomaria o aurélio das duas
há há há há
e depois de comê-lo bem gostoso, ela diria "só pro meu prazer" bem feito, e o dispensaria.. pq como diz minha prima: homem feio é igual ventania, só quebra o galho!!

hahahhaahahahaha

até,

ANGELINA

berinjelinha disse...

Hey, babessssssss
I'm back

=****

Fernando Gomes disse...

Nove entre dez amizades femininas terminam por causa de macho. Pra mim é um motivo extremamente besta, afinal a amizade das duas parecia superior a essas babaquices. Só parecia...

Bom texto ;D

HoneyBee disse...

Os personagens são fictícios? Porque conheço uma meia dúzia de casos semelhantes...

roas77 disse...

Acabei inetentificando casos bem pareceidos .. srsrs

é uma pena uma amizade se acabe assim .. pelo menos parecia ser ..

Abç..

Fernando Souza disse...

seu blog me aparentou excelencia. vou ve-lo e analisa-lo com mais calma. capriche!

luz e inspiração,
fernando
http://neo-bio-blog.blogspot.com/

Sopa das Letras disse...

Primeiramente, gostei do post e de todo o "clima" do blog.
Esse tema exposto é realmente intrigante...Não há como confiar nas pessoas, nem nas pessoas que dizemos serem nossas amigas. É cruel a traição de uma delas, e cotidianamente assisto a casos destes. Infelizmente não é só história, ocorre!

Visitem também: www.sopadasletras.blogspot.com

Agradeço desde já!