domingo, 3 de fevereiro de 2008

The end

Gosto particularmente de filmes que não tenham finais felizes. Finais românticos felizes. Passei a semana inteira com essas duas frases na cabeça, sabendo que escreveria sobre isso, mas não como continuar. Em um de seus haicais, Leminski renuncia a realidade, “esse baixo-astral onde tudo entra pelo cano” e diz querer viver de verdade, escolhendo o cinema americano.

O filme que me fez ver como eu gosto de histórias de amor que não precisam terminar bem não vem ao caso. Até porque ele fala da relação entre mães e filhas, o que já foi abordado nesse blog. Apesar de ser americano, não há final feliz com o casal, embora tudo pareça ser encaminhado para isso. O final não-romântico, mas real, salva o filme dessa mediocridade de que para sermos felizes, precisamos encontrar o homem/mulher de nossas vidas e, assim, dissipar todo o mal que possa existir.

Crescemos ouvindo, lendo e vendo que o final deveria assim. E tudo isso o que escrevi se parece com o velho e batido “felizes para sempre” dos contos de fada. Por que não gosto de finais românticos felizes? Ora, simplesmente, porque isso não condiz com nossa vida, que é contínua e carrega fins e recomeços todos os dias. E mesmo diante da morte (o maior final), e olhando para trás, creio que a gente não vai saber se viveu realmente feliz para sempre algum dia. (No terreno do além eu nem vou adentrar).

Sei que, em qualquer esfera, a gente escolhe, renuncia, termina, volta, esquece, passa por cima, encontra outros amores/empregos/amigos e vive tudo novamente. E mesmo que seja sempre o mesmo a vida inteira, os ciclos ainda existem e sem eles tudo perderia a graça, até mesmo a graça dos contos de fadas. (Lembrei de Vinícius, que tem um poema onde conta a história de uma vida – com ênfase ao amor – em 14 versos. Eis alguns: “...E começar a amar e então sorrir/ E então sorrir para poder chorar/ E crescer, e saber, e haver, e perder, e sofrer, e ter horror/ De ser e amar, e se sentir maldito/ E esquecer tudo ao vir um novo amor...).

Sei também que toda boa história precisa terminar. (Menos as de Sherazade, onde o fim da história seria a própria sentença de morte). A narrativa é um recorte, um fragmento de uma ou mais vidas, capazes de distanciar o leitor da sua própria realidade por instantes e até provocar nele uma catarse. Depois disso, se a história do filme realmente for boa, aquele que o assistir não será mais o mesmo. O final de um livro, de um filme ou até de uma narrativa musicada representa, acredito eu, também o final de um personagem, de uma vida contada. Talvez por isso, incomoda-me tanto as continuações no cinema.

Finais têm me arrancado noites de sono e me rendido boas reflexões nos últimos meses. Embora saiba que todo fim traz em si um recomeço, a dor do término e principalmente a incerteza, quando se trata de renúncias, são um calo no meu sapato. Sabe aquela sensação de epitáfio? Aquela de “deveria ter feito isso, aproveitado enquanto era hora, escolhido tal coisa, renunciado a tal outra enquanto dava tempo, mudado de cidade, de casa, de ares”? Nosso genitor Chico compôs “Vida”, que é tanto uma narrativa, como um desabafo de uma mulher que verteu sua vida nas casas dos homens de vida vadia, fez poucas e boas, mas sabe que ali foi feliz. Acho linda a música, principalmente porque fala de portos, de cais, metáforas certeiras para se falar de vida. Talvez porque seja mesmo o final das coisas um porto. Pegar o barco e sumir no horizonte requer coragem para arriscar a pele, mas proporciona belas paisagens.

Uma vez li uma crônica do Veríssimo em que o protagonista bebia desolado em um bar imaginando como seria sua vida se tivesse feito determinadas escolhas. E como se num passe de mágica, ou por efeito do álcool - vai saber, as alternativas se materializam diante dele. Aparece o homem que ele teria sido se tivesse feito um teste para goleiro, se tivesse prestado concurso, se tivesse casado com uma antiga namorada... Todos eles foram mais infelizes. É uma tentativa interessante de se provar que a gente tem que viver mesmo com um pé no futuro e não no passado e nem no “e se” que, aliás, é o nome da crônica.

Para não dizer que não falei de mulheres, preciso compartilhar da letra linda que ouvi na voz de Elis Regina. “Maria Rosa” é o nome da música e, pra variar, fala de finais. Para ser mais exata, o final de uma menina que “era um anjo de formosa” e que hoje vive em farrapos. E cada trapo que veste não é apenas necessidade, mas representa uma saudade de algum amor que passou. E de repente comecei a pensar que triste era a vida Maria Rosa. De cabelos grisalhos já devia carregar inúmeros farrapos, mas e eu, tão nova, quantos trago em mim? (Juro que me arrepiei quando ouvi o final da música – justo o final! – que diz: Vocês, Marias de agora, amem somente uma vez / Pra que mais tarde essa capa não sirva em vocês).

Dizem que os escritores costumam escrever para extirpar os fantasmas que lhes assombram. Como os meus atualmente são os finais, acredito que depois desse texto eles não devam me incomodar mais. Mas não posso garantir que os cemitérios deixem de existir na minha cabeça.

A Rosa
(Não arraso projeto de vida nenhum – a não ser o meu. Não sei sambar – e não tenho vergonha de assumir isso em pleno de carnaval. Não sou artista, ando levemente bandida e só um pouco falsa – porque ninguém é de ferro. Vadia, não. Não atualmente. Nunca tive vocação pra gueixa. Ser santa e fogosa deve fazer parte de todas nós, mulheres de Atenas, por isso não me descreve apenas. Por que estou Rosa, então? Sei lá, só porque me gusta estar, e não ser, Rosa...)

10 comentários:

Strider disse...

Ah, não sei... eu gosto de finais felizes. Estou neste momento buscando um final feliz pra minha vida (que acabou de começar, mas pra terminar feliz eu preciso ser feliz desde já u.u)

Você tem intimidade com as letras!

Abraços e pinta no meu blog de vez em quando.

Mulheres de Atenas disse...

Mostrei o texto para uma amiga, que apontou que, embora eu enaltecesse tanto os finais, o meu texto não possui um. Escrevi tanto sobre os ciclos q se completam, sobre as vidas q se terminam que não consegui fechar o círculo da minha idéia. Praga de roteirista ou escritor, só pode! Hehe
abraço,
Rosa

Renan disse...

Não é uma questão de gostar ou não de finais felizes...quem correr atrás,para ter um final feliz, terá com certeza.E quem não buscar a felicidade, não terá um final feliz...
E se nos filmes vc gosta de ver a realidade, e não fugir pelo menos um pouquinho do mundo perigoso em que vivemos...Vá até a locadora mais próxima e alugue Cidade de Deus.


Abraços...
Seu blog tá muito bom e vc escreve muito bem...;)

Luilton disse...

Gosto de finais de filme que pareçam reais. Não necessariamente triste... não necessariamente feliz.

Sobre o resto do post... Profundo demais pra mim.. eheh

Abração.

KAKA disse...

ei meu bem... post pertinente e sempre coerente, compartilho com sua idéia, mas acredito que os finais felizes é só um lance comercial, já que tantos esperam que depois de tantas tentativas, desastres, desencontros, as coisas no final vá bem!a busca de um final feliz é uma utopia humana, disperdiçando seu tempo e esperando que a vida seja boa somente no FINAL, porque não desde sempre! qto aquilo que nos apega, como num parágrafo: Veríssimo; ah ele é perfeitinho, tenho um amigo assim(claro tem que ser um amigo rs)que por mais escolhas ele tenha à sua disposição, em todas a felicidade não se faz presente, sua vida é sempre um "SE"... bjim e aquele abraço com o carinho de sempre da KK.
http://muitoparticular.zip.net

Portal disse...

Um final feliz sempre cai bem... Gostei do blog! Comenta lá também:

www.portalespetacular.zip.net

Mulheres de Atenas disse...

Os finais me deixam sempre deprimida. Talves pq nunca sei onde ele começa, onde ele termina.
Queria ser como o personagem de Fernando Sabino, de ver sempre um recomeço, ao invés de finais, mas geralmente as coisas escapam do nosso querer.

Saudações,

Carolina.

Mulheres de Atenas disse...

Nossa vida é cheia de finais e sou da opinião de que eles sempre são um recomeço. Nem mesmo a morte representa um final definitivo, pois não se sabe o que inicia depois, mas isso é apenas um devaneio para algum post futuro...
E quanto à incoerência do texto,não achei nenhuma. Nem toda conclusão precisa ser definitiva, como um final. Assim como alguns dos finais dessa vida, que deixam aquela sensação de que pode continuar... assim mesmo, com reticências...
bjs,
Helena Terezinha Cecília

Natasha disse...

Eu tb gosto muito de finais felizes pq eu me sinto feliz e tal, ms tb gosto de finais realistas e bem feitos, como td munod, creio eu, só que pelo menos na minha vida, há momentos pra cada um deles, as vezes eu quero ver filmes bobos que me dÊem uma certa alegria instantânea e as vezes prefiro ver filmes bem feitos e trabalhados que nem sempre acabam com finais felizes....

Na minah vida, bem, tenho só 21, sou jovem, mas vive bem, bastante e com alternâncias de finais felizes e tristes, reais e uns bem surreais, mas como eu mesma ostumo repetir em quase td que falo ou escrevo: é cíclico, beiber^^

Cristiane disse...

Com certeza os finais trágicos e tristes são os melhores! Na grécia antiga as tragédias já faziam mais sucesso que as comédias! Romeu e Julieta, Casablanca e E o vento levou? Clássicos finais tristes! Eu adoro!!!! Gostei sim Rosa tb poderia ter escrito sobre os finais, eles sempre levam um pedaço grande de mim...que eu nunca sei se recupero ou não. Ficou linda a definição da Rosa... bjos