sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Todas as cartas de amor são ridículas

“As bocas eram encaixe perfeito. Poderiam passar o resto da vida encantadas. Poderiam retardar o nascimento do dia, esconder o sol em alguma caixa mágica, apagar o dia e ser eterna noite. Poderiam estabelecer uma nova ordem mundial, fazer prevalecer o amor sobre as guerras, sobre qualquer violência. Poderiam apagar as luzes da cidade, deixar as estrelas iluminando a escura noite. Poderiam ficar nus no Jabaquara ou em Trindade, fazer amor dentro da noite eterna. Poderiam mas não o fizeram. Partiram para rumos contrários. As noites se sucederam tão efêmeras como uma flor do campo ou como a própria vida”. (Flávio Machado)

O amor acaba nas pequenas coisas da vida, já disse Paulo Mendes Campos*. O amor termina quando tentamos dar-lhe um nome, revelou Clarice**. Mas como é que ele começa?

Não vim para tentar explicar o amor, mesmo porque, acredito eu, ele é inexplicável. Não faltam músicas, textos e provas de amor que tentam esclarecê-lo, materializá-lo, contudo, para nada elas servem. Às vezes apenas para nos fazerem chorar. (Eu hoje eu acordei tão só, mais só do que eu merecia. Eu acho que será pra sempre, mas sempre não é todo dia – traindo Chico, cito Oswaldo).

Olho para meus pais, que neste ano comemoram 25 anos de casados, e penso em qual será o segredo. Então, depois de muito observar, eu percebo que amar não é não conseguir viver sem uma pessoa, mas conseguir viver com ela. Odiá-la por cada defeito e ao mesmo tempo conviver e sobreviver a eles.

Há alguns dias eu revivi, por poucos instantes, momentos da época em que, talvez, tenha vivido meu único amor verdadeiro. Sentimento que já não existe mais, é apenas uma saudade, como a infância que sabemos que jamais retornará.

Por muitas vezes pensei que era amor. Ao seu jeito, talvez cada um tenha realmente sido amor, mas nenhum deles foi suficiente para eu ter certeza. O ‘amor’ que eu reencontrei foi aquele com o qual não se pensa em casar, ao qual não queremos dar nome, ao qual apenas curtimos e achamos graça em estar juntos. Amor de criança, puro e sincero. Foi o único amor ao qual escrevi uma carta e que, pelo jeito, irá para sempre me denunciar.

Quem nunca escreveu uma carta de amor, não a escreva, ela será para sempre lembrada e não importa quão linda ela seja, será ridícula. E, se já a escreveu ou um dia escrever, caso não pareça ridícula, sinto muito, você não tem talento para cartas de amor.



Também escrevi em meu tempo cartas de amor

“Eu ainda tenho a carta e o laço do cabelo”, disse-me alguém ao pé do ouvido. Quem mais poderia tê-los senão ele? Virei atônita, com um calafrio do dedão do pé ao último fio de cabelo, quase sem respirar. Não gosto nem de imaginar meu rosto, pois ele sempre fica ainda mais feio quando estou com medo ou assustada, e naquela ocasião eu sentia isso e um pouco mais.
Não sei quanto tempo se passa para uma pessoa girar em torno de si própria, não mais que cinco segundos, imagino. Mas, sendo muito ou pouco tempo, foi o suficiente para lembrar da carta e do laço e de como eles foram parar lá.

Ele continuava moreno. Antes, moreninho. Agora, morenão. Seus olhos verdes esverdearam mais com o passar dos anos e eu não conseguiria vê-los de tão perto se ele não estivesse inclinado para falar comigo. Naquela época ele media apenas dois dedos a mais do que eu e hoje meu salto mais alto não seria suficiente para alcançá-lo.

Enfim, talvez eu não o reconhecesse se não tivesse falado comigo. É provável que o visse e nem cumprimentasse, com aquela impressão de que o conhecia de algum lugar.

Não sei ao certo quando nos vimos pela primeira vez. Lembro que estávamos juntos numa peça de teatro e que era tio de uma amiga. Aquele tio que chega mais tarde, tão jovem quanto a sobrinha. Então, depois de alguns passeios, ensaios e muita paquera, o primeiro beijo aconteceu. Não lembro direito como, lembro apenas do frio na barriga. Em seguida entreguei-lhe uma carta escrita por mim e aprovada por uma comissão de amigas, cheia de versos que nem quero lembrar de tão bobos que eram.

Dez anos depois aqueles olhos verdes falavam comigo novamente. “Continue guardando o laço do cabelo, pois com essa moda que vai e volta, talvez você possa usá-lo em alguma ocasião especial. Mas a carta... (neste momento, se ainda não estava vermelha, é certo que corei!) A carta é ridícula! Não serve nem de modelo para mandar a alguma namorada”, responderam meus olhos cor de mel ao par de olhos verdes que me olhavam fixamente. Ainda ao pé do ouvido ele retrucou com aquele sorriso que fez bambear as minhas pernas: “Todas as cartas de amor são ridículas”.

Só então demos um abraço apertado, de velhos amigos felizes em se encontrar, e seguimos a conversa falando da vida e do que tínhamos inventado desde que, na janela do ônibus, ele se despediu, dizendo que não sabia quando voltaria. Agora sabemos: 10 anos!

O laço do cabelo ele confiscou num dos nossos encontros. Era preto, básico. Se eu ainda o tivesse talvez o usasse para conquistar outro rapaz. Quem sabe seja exatamente este ‘charme’ que me falte agora. Depois que ele foi embora descobri que levava de mim o laço e a carta, mas carregava o coração de outras três meninas, no mínimo. (ABRE PARENTESES Desde o primeiro beijo já tendo desilusões com os homens FECHA PARENTESES). Porém, de tudo o que levou, somente o laço e a carta ele ainda tem. Os três corações, que eu sei, já têm outros donos.

Rimos e lembramos dos amigos. Falamos bem e mal de cada um. Só nos demos conta de que estávamos conversando há quase meia hora quando percebemos que os funcionários da livraria estavam pensando em nos expulsar, ou servir um cafezinho para nos sentirmos mais à vontade.

Que maravilha! Ele saiu de lá com um livro de engenharia, um Fernanda Young para a sobrinha que estava se formando e um Veríssimo, porque, segundo ele, ninguém é de ferro e até engenheiros precisam esquecer as contas e rir um pouco. O garotinho bobo, que ficou o verão de castigo porque reprovou, ficara inteligente.

Simpático, bonito e inteligente! Ele deve ter chulé! Mas isso não é nada. O que mais eu poderia querer? Seu telefone, é claro.

Depois de telefones e MSNs trocados, um abraço e os desejos habituais de felicidades. Só quando entrei no carro é que percebi que novamente demos tchau sem saber quando nos veríamos.

Eu não liguei, nem ele. Também não nos encontramos no bate papo e, por enquanto, terminamos assim.

Só agora, depois de escrever e reler, é que percebo que talvez este texto tão pobre não devesse ser publicado. E, como diria Álvaro de Campos, “a verdade é que hoje as minhas memórias dessas cartas de amor é que são ridículas”.

Um abraço.

Momentaneamente, Terezinha

PS: Hoje eu sou um pouco Terezinha, que depois de vários amores ‘falsos’, encontrou o verdadeiro, para quem se doou inteiramente. Porém, não sou Terezinha por completo, afinal, ainda espero o terceiro, aquele que chegará para se espalhar definitivamente em meu coração. “O primeiro me chegou como quem vem do florista/ Trouxe um bicho de pelúcia, trouxe um broche de ametista... /Me chamava de rainha/ Me encontrou tão desarmada, que tocou meu coração/ Mas não me negava nada e, assustada, eu disse não.
O segundo me chegou como quem chega do bar/ Trouxe um litro de aguardente tão amarga de tragar.../ Me encontrou tão desarmada que arranhou meu coração/Mas não me entregava nada e, assustada, eu disse não.
O terceiro me chegou como quem chega do nada/ Ele não me trouxe nada, porém nada perguntou.../ Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não/ Se espalhou feito um posseiro dentro do meu coração”.

E, se fosse apenas pela história que contei, talvez eu devesse assinar como Cecília, afinal, “pode ser que, entreabertos/ meus lábios de leve/ tremessem por ti”.

*O amor acaba, de Paulo Mendes Campos http://www.angelfire.com/la2/poeta/Oamoracaba.htm
**Por não estarem distraídos, de Clarice Lispector http://claricelispector.blogspot.com/2007/12/por-no-estarem-distrados.html

7 comentários:

Mulheres de Atenas disse...

Ótimo texto!!!!!
E quem disse que cartas de amor não rendem boas lembranças e surpreendentes textos?!?!
Tonto engano seu achar que é um texto bobo, bobos somos nós quando não temos coragem de entregar uma carta de amor, que além de ridículas são fantásticas, tanto pela forma de entregar quanto pelo conteúdo. Mas a nossa Teresinha, que já foi Helena, está de parabéns!!

Beijos e abraaços,


Carolina (a do chico)

KAKA disse...

não tenho palavras para descrever meu prazer de ler você!! obrigada! enfim, cartas de amor são ridículas, mas as lembranças... são maravilhosas! bjim e aquele abraço com o carinho de sempre KK

Alice Cristina disse...

Como já dizia Cazuza... o amor é o ridículo da vida!!!

Adoreio texto!!
=D

Dr. Fácil disse...

O texto é o oposto do tema. Cartas de amor são absolutamente ridículas, apesar de bonitinhas na hora... E coitado dos nossos 10% de cérebro - a porção que parece que pensa. Pois com amor ninguém pode... Escrever, bater de frente com ele só se for por outro assunto. Daí seria só pra aliviar, né? Beijos

Mulheres de Atenas disse...

Demorei tanto tempo para comentar esse texto que achei q ele merecia um comentário sensacional. Porém, nada seria sensacional depois desse texto. (Por isso que continuo sentindo medo do próximo). Obrigada pela história linda, contada ao pé do ouvido, como só as contadoras de histórias (leia Clarice Estésw q vc vai entender) são capazes de fazer. Acho q um bom texto é aquele que nos provoca um misto de emoção e entretenimento. Posso dizer q me emocionei com suas palavras e ri muito por me identificar por alguns momentos. Principalmente pq tb escrevi cartas e elas ainda me denunciam.
Beijos,
Beatriz

Srtª Amora disse...

"amar não é não conseguir viver sem uma pessoa, mas conseguir viver com ela. Odiá-la por cada defeito e ao mesmo tempo conviver e sobreviver a eles." isso diz tudo.

mesmo ridículas... por falar nisso, tem umas no meu blog, querendo é só ler tudo que esteja relacionado ao John Nash, elas são lembranças de quando nada mais importava e o mundo era bem resumido.

Obrigada pela visita. Vou te favoritar... com sua permissão.Bjok!

CAB disse...

Oh!Como gosto "todas as cartas de amor são ridiculas"acho que me encaixo muito bem neste texto.
Quantas vezes ja foi ridicula por espressar meu sentimento em uma carta de amor...quero sempre esta sendo ridicula para varios monemtos de felicidade...ser ridiculo por amor e estar vivo.parabenlizo e serei etrnnamente por ter esse sentimento....abraços.....
Cristina Alves