Nós voltamos. Aliás, há algum tempo isso aconteceu, mas eu hesitava em comentar a novidade com medo de que ele me deixasse novamente. Depois do que ele tinha me feito, acabou voltando com o rabo entre as pernas. Tudo bem que, de certa forma, eu é que havia provocado seu arrependimento e o conserto de nossa relação. Mas é fato, ele tinha voltado pra mim!
Agora eu era a dona do pedaço. Eu quem dava as ordens e fazia as regras. Eu dizia quando e como queria. Eu é que marcava compromissos e viagens sem pedir sua licença. Apenas comunicava a decisão, pegava ele pelo braço e me mandava.
Mas as coisas nunca acontecem como a gente planeja; regra! Viajaríamos neste natal, voltaria pra casa ao seu lado, para a confraternização em família. Contudo, desta vez foi o acaso que nos separou. Sim, aquele conjunto de causas independentes que determinam um fato qualquer, justo ele, sempre ele... Uma mulher atravessou o nosso caminho e nos deixou totalmente esfacelados. A maldita me fez ver de perto o fio da navalha pelo qual caminhamos diariamente.
Mais uma prova de que eu e ele não fomos feitos um para o outro. Meu pai, que mesmo tendo um M de machista às vezes sai com um bom conselho, falou que a culpa não era dele. - Não importa, pai, eu sei que mesmo dolorosa, existe a constatação de que ambos vão por caminhos opostos e é só; nem culpa de um, nem culpa de outro.
De todos os consolos, um me serviu mais, simplesmente pela comodidade do agrado. “Talvez, filha, isso aconteceu para que algo pior não viesse pela frente e para que a liberdade do descompromisso lhe permita novos contatos”. - Tá certo, pai, disso eu gostei...
Luiza.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
domingo, 13 de dezembro de 2009
Under my umbrella
Depois de dias de calor, nos quais andar no sol foi, literalmente, uma tarefa árdua, as botas puderam sair do armário, pois a chuva veio em grande quantidade, quietinha e sem pedir licença.
Quando eu era criança, meu pai ligava para a minha avó uma vez por semana, pois não tínhamos telefone em casa e fazíamos as ligações do escritório. Ele me colocava na linha e ela dizia:
“Hoje choveu muito. Está coisa mais linda aqui do alto! As alfaces estão crescendo de um dia para o outro, dá até para ver as folhas dobrando de tamanho. Aqui do alto, dá para ver o festival de guarda-chuvas coloridos. Coisa mais linda!”.
Por mais que eu estivesse perto e de olhos atentos, jamais consegui ver as folhas crescendo. Lá da casa da minha avó eu não enxergava muito e sempre achei que fosse culpa da minha altura. Pensava que com o tempo, cresceria e poderia ver a maravilha do desfile de guarda-chuvas lá embaixo.
Cresci e descobri que as folhas realmente crescem mais rápido e que guarda-chuvas invadem as ruas quando chove. Aqui no andar de cima, no centro da cidade, neste dia chuvoso, descobri também que há sempre maneiras mais belas de contar o cotidiano. Embora aqui do alto possamos ver que a maioria dos guarda-chuvas é preta!
Beijos (inteiros como sugere a outra mulher de Atenas),
Terezinha
Quando eu era criança, meu pai ligava para a minha avó uma vez por semana, pois não tínhamos telefone em casa e fazíamos as ligações do escritório. Ele me colocava na linha e ela dizia:
“Hoje choveu muito. Está coisa mais linda aqui do alto! As alfaces estão crescendo de um dia para o outro, dá até para ver as folhas dobrando de tamanho. Aqui do alto, dá para ver o festival de guarda-chuvas coloridos. Coisa mais linda!”.
Por mais que eu estivesse perto e de olhos atentos, jamais consegui ver as folhas crescendo. Lá da casa da minha avó eu não enxergava muito e sempre achei que fosse culpa da minha altura. Pensava que com o tempo, cresceria e poderia ver a maravilha do desfile de guarda-chuvas lá embaixo.
Cresci e descobri que as folhas realmente crescem mais rápido e que guarda-chuvas invadem as ruas quando chove. Aqui no andar de cima, no centro da cidade, neste dia chuvoso, descobri também que há sempre maneiras mais belas de contar o cotidiano. Embora aqui do alto possamos ver que a maioria dos guarda-chuvas é preta!
Beijos (inteiros como sugere a outra mulher de Atenas),
Terezinha
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Forma perfeita
A forma mais singela para se despedir, em uma conversa virtual, é a palavra beijo. No singular, sem abreviações. Dei para achar essa palavra escrita sensual. Beijo desliza entre as teclas e lida, entre os lábios. Teorizei que quando se manda beijo, o outro deve ser especial. Beijos a gente manda automaticamente, para qualquer um. Beijão merece certo grau de aproximação. Mas beijo, beijo, beijo escrito assim repetidas vezes me provoca, atiça.
Talvez porque a palavra é linda falada. É íntima o suficiente, pronuncia-se inteira, pausadamente. Roça no ouvido. Quem fala beijo deve antes molhar os lábios, para que o som resvale, e o outro a pegue no ar.
O encontro das vogais prolonga a palavra, mas ao mesmo tempo o som final, o do biquinho, a deixa curta. É um termo que me intriga. Talvez porque as palavras sem sinônimo à altura me fazem refletir sobre elas. Ósculo é feio, pegajoso. Ou talvez porque, ao ler um beijo, a gente imagina o locutor. Como ele fala beijo. Como ele beija. E como será além de ouvir, sentir o beijo.
O beijo reticente, necessário em um curto espaço de tempo. O beijo dos delírios de Rodin, o beijo despretensioso, o beijo do encontro e aquele último, o grave, o beijo da despedida. O beijo que, sendo o derradeiro, fica.
Rosa.
Talvez porque a palavra é linda falada. É íntima o suficiente, pronuncia-se inteira, pausadamente. Roça no ouvido. Quem fala beijo deve antes molhar os lábios, para que o som resvale, e o outro a pegue no ar.
O encontro das vogais prolonga a palavra, mas ao mesmo tempo o som final, o do biquinho, a deixa curta. É um termo que me intriga. Talvez porque as palavras sem sinônimo à altura me fazem refletir sobre elas. Ósculo é feio, pegajoso. Ou talvez porque, ao ler um beijo, a gente imagina o locutor. Como ele fala beijo. Como ele beija. E como será além de ouvir, sentir o beijo.
O beijo reticente, necessário em um curto espaço de tempo. O beijo dos delírios de Rodin, o beijo despretensioso, o beijo do encontro e aquele último, o grave, o beijo da despedida. O beijo que, sendo o derradeiro, fica.
Rosa.
domingo, 22 de novembro de 2009
Referência
Texto citado no texto anterior. Do genial Xico Sá:
A GENTE SE VÊ (O REMIX)(03/11/2009)
Em uma megalópole como SP e outras tantas grandes cidades, haja encontros e desencontros, Sophia querida, alguns não tão graves, acontece, outros infinitamente dolorosos, que nos perturbam os sentidos, que fazem a gente maldizer os céus, os astros, o destino.
Fica tudo na base do “a gente se vê”... E fudeus, adeus!
Não que fosse acontecer um casamento ou algo do gênero a partir daquele encontro, nada disso, mas foram encontros bonitos, fortes, que se acabam ali mesmo, na poeira da estrada, numa tarde fria, em um café da manhã, numa simples despedida sob a neblina na Dutra ou Anchieta.
“A gente se vê.” Pronto, eis a senha para o terror, o “never more”, o nunca mais do corvo do escritor Edgar A. Poe.
A gente se vê. Corta para uma multidão no viaduto do Chá.
A gente se vê. Corta para uma saída de estádio lotado em dia de decisão do campeonato.
A gente se vê. Corta para “onde está Wally”.
Nada mais detestável de ouvir do que essa maldita frase. Logo depois a porta bate e nem por milagre.
Jovens mancebos, evitem essa sentença mais sem graça. Raparigas em flor, esqueçam, esqueçam.
Melhor dizer logo que vai comprar cigarro, o velho king size filtro do abandono. Melhor dizer que vai pra nunca mais. Melhor o silêncio, o telefone na caixa postal, o telefone desligado, o fora da área, a clandestinidade amorosa, o desprezo on the rock´s.
A gente se vê uma ova. Seja homem, troque de palavras, use o código do bom-tom e da decência. A gente se vê é a mãe, ora, ora.
Como canta o Rei, use a inteligência uma vez só, quantos idiotas vivem só...
Esse “a gente se vê” deveria ser proibido por lei. Constar nos artigos constitucionais, ser crime inafiançável no Código Penal.
A gente se vê é pior do que a gente se esbarra por ai. Pior do que deixar ao acaso, que jamais abolirá a saudade, que vira uma questão de azar e sorte.
Melhor dizer logo “foi bom, meu bem, mas não te quero mais”. YO NO TE QUIERO MÁS, como na camiseta mexicana que ganhei de una hermosa chica. Dizer foi bom meu bem e pronto, ficamos por aqui, assim é a vida, sempre mais para curta do que longa-metragem.
A gente se vê é a bobeira-mor dos tempos do amor líquido e do sexo sem compromisso. A gente se vê é a vovozinha, foda-se!
Seja homem, seja mulher, diga na lata.
Não engane a moça, que a moça é fino trato, que não merece desdém.
A fila anda, jogue limpo.
A gente se vê. Corta para uma multidão no show do Morumbi. A gente se vê. A gente se vê. Corta para a multidão no Campo de Marte. A gente se vê. Corta para o formigueiro do Maracanã. A gente se vê. Corta para a São João com a Ipiranga. Corta para a 25 de Março em véspera natalina. A gente se vê. Corta para um engarrafamento gigante na marginal do Tietê...
A gente se vê. Então aproveita e vai olhar se eu estou na esquina!
A GENTE SE VÊ (O REMIX)(03/11/2009)
Em uma megalópole como SP e outras tantas grandes cidades, haja encontros e desencontros, Sophia querida, alguns não tão graves, acontece, outros infinitamente dolorosos, que nos perturbam os sentidos, que fazem a gente maldizer os céus, os astros, o destino.
Fica tudo na base do “a gente se vê”... E fudeus, adeus!
Não que fosse acontecer um casamento ou algo do gênero a partir daquele encontro, nada disso, mas foram encontros bonitos, fortes, que se acabam ali mesmo, na poeira da estrada, numa tarde fria, em um café da manhã, numa simples despedida sob a neblina na Dutra ou Anchieta.
“A gente se vê.” Pronto, eis a senha para o terror, o “never more”, o nunca mais do corvo do escritor Edgar A. Poe.
A gente se vê. Corta para uma multidão no viaduto do Chá.
A gente se vê. Corta para uma saída de estádio lotado em dia de decisão do campeonato.
A gente se vê. Corta para “onde está Wally”.
Nada mais detestável de ouvir do que essa maldita frase. Logo depois a porta bate e nem por milagre.
Jovens mancebos, evitem essa sentença mais sem graça. Raparigas em flor, esqueçam, esqueçam.
Melhor dizer logo que vai comprar cigarro, o velho king size filtro do abandono. Melhor dizer que vai pra nunca mais. Melhor o silêncio, o telefone na caixa postal, o telefone desligado, o fora da área, a clandestinidade amorosa, o desprezo on the rock´s.
A gente se vê uma ova. Seja homem, troque de palavras, use o código do bom-tom e da decência. A gente se vê é a mãe, ora, ora.
Como canta o Rei, use a inteligência uma vez só, quantos idiotas vivem só...
Esse “a gente se vê” deveria ser proibido por lei. Constar nos artigos constitucionais, ser crime inafiançável no Código Penal.
A gente se vê é pior do que a gente se esbarra por ai. Pior do que deixar ao acaso, que jamais abolirá a saudade, que vira uma questão de azar e sorte.
Melhor dizer logo “foi bom, meu bem, mas não te quero mais”. YO NO TE QUIERO MÁS, como na camiseta mexicana que ganhei de una hermosa chica. Dizer foi bom meu bem e pronto, ficamos por aqui, assim é a vida, sempre mais para curta do que longa-metragem.
A gente se vê é a bobeira-mor dos tempos do amor líquido e do sexo sem compromisso. A gente se vê é a vovozinha, foda-se!
Seja homem, seja mulher, diga na lata.
Não engane a moça, que a moça é fino trato, que não merece desdém.
A fila anda, jogue limpo.
A gente se vê. Corta para uma multidão no show do Morumbi. A gente se vê. A gente se vê. Corta para a multidão no Campo de Marte. A gente se vê. Corta para o formigueiro do Maracanã. A gente se vê. Corta para a São João com a Ipiranga. Corta para a 25 de Março em véspera natalina. A gente se vê. Corta para um engarrafamento gigante na marginal do Tietê...
A gente se vê. Então aproveita e vai olhar se eu estou na esquina!
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Post it

Nobres rapazes, não tenham medo de dizer o poderoso NÃO, o “bye, bye, tchau, fui”, o “sai da minha aba”, o “desencana, tô noutra”, o “au revoir”, you know? O sexo feminino não é tão frágil que não possa suportar um adeus. Elas já deram e receberam tantos, e muitos ainda virão nessa vida. Não será o seu que fará desmoronar nada além do que um dia ou dois. Um e-mail efusivo, uma ligação carinhosa, um recado esperto, nada disso significa que elas morram de amores por vocês. Elas podem, sim, “ser legais e não dar mole”. Vamos lá, não se preocupem, elas podem não estar nas suas, e, caso estiverem, entre um não e outro, haverão muitas afirmativas. Por isso, digam, digam sim um NÃO bem gostoso de se ouvir, pelo menos mostra que coragem não é um adjetivo apenas feminino.
Vamos lá, mancebos, sem melindres...
Afinal, como diria o velho Buarque:
"Se acaso me quiseres
Sou dessas mulheres
Que só dizem sim
Por uma coisa à toa
Uma noitada boa
Um cinema, um botequim"
[Inspirado no “A gente se vê”, de o carapuceiro]
Luiza.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Quando a cabeça encosta o travesseiro
[Da série "Quando"]
O peito dói quando a cabeça deita sobre o travesseiro. É lá que borbulha o peso dos sonhos abafados, das palavras não ditas, dos planos no amanhã. Exatamente naquele lugar, voltam as lembranças das letras que o vento leva, dos sentimentos que passam desencontrados, como a lua que cresce e o sol que cai, acabando com o desejo de admirá-los juntos.
Naquela hora em que a cabeça deita e o peito sofre, se faz mil planos, se desenha novas figuras. Lá é que habita a saudade daquele velho corpo, daquela canção mais sabida, da poesia decorada, da ligação prolongada. Daquela posição é que se desenha novas calçadas, se faz prodigiosos planos e se espera o melhor de tudo e de si mesmo.
É quando o corpo parado e a mente louca, viajando, se espera o beijo na testa, o cafuné mexendo os cabelos, a música no ouvido emanada daquela voz doce que sussurra os versos açucarados. Quando o peito dói, a cabeça alcança o travesseiro e a mente viaja, você bastaria do meu lado, sendo sol e lua juntos, na dança mal ensaiada da vida.
Luiza.
O peito dói quando a cabeça deita sobre o travesseiro. É lá que borbulha o peso dos sonhos abafados, das palavras não ditas, dos planos no amanhã. Exatamente naquele lugar, voltam as lembranças das letras que o vento leva, dos sentimentos que passam desencontrados, como a lua que cresce e o sol que cai, acabando com o desejo de admirá-los juntos.
Naquela hora em que a cabeça deita e o peito sofre, se faz mil planos, se desenha novas figuras. Lá é que habita a saudade daquele velho corpo, daquela canção mais sabida, da poesia decorada, da ligação prolongada. Daquela posição é que se desenha novas calçadas, se faz prodigiosos planos e se espera o melhor de tudo e de si mesmo.
É quando o corpo parado e a mente louca, viajando, se espera o beijo na testa, o cafuné mexendo os cabelos, a música no ouvido emanada daquela voz doce que sussurra os versos açucarados. Quando o peito dói, a cabeça alcança o travesseiro e a mente viaja, você bastaria do meu lado, sendo sol e lua juntos, na dança mal ensaiada da vida.
Luiza.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Espírito
“Estou cansada”. A frase foi dita duas vezes no filme de personagens desconhecidas e ao mesmo tempo entrelaçadas. Entrelaçadas estamos todas nós, mulheres, nesse cansaço diário. Sempre acreditei que determinadas palavras têm mais força na boca feminina. Na boca vermelha de batom, na boca carnuda que pede um beijo. Na boca que treme, querendo fugir, na boca que faz bico querendo ficar.
Quando um homem diz: estou cansado, geralmente é físico. Quando é a mulher, mental. Não estou dizendo que são esses os únicos cansaços possíveis, para um e outro. Mas quando uma de nós diz: cansei, é porque cansamos mesmo.
Ando cansada dessa gente que não sabe para onde vai. Cansei de notícias que não me dizem nada. Estou farta de histórias de amores impossíveis, seja pelo sistema, pelo regime patriarcal, pela distância. Chega dessa história de “cada escolha é uma renúncia, isso é a vida” (vá se foder, Chorão).
Quero paz na minha cena.
Rosa.
Quando um homem diz: estou cansado, geralmente é físico. Quando é a mulher, mental. Não estou dizendo que são esses os únicos cansaços possíveis, para um e outro. Mas quando uma de nós diz: cansei, é porque cansamos mesmo.
Ando cansada dessa gente que não sabe para onde vai. Cansei de notícias que não me dizem nada. Estou farta de histórias de amores impossíveis, seja pelo sistema, pelo regime patriarcal, pela distância. Chega dessa história de “cada escolha é uma renúncia, isso é a vida” (vá se foder, Chorão).
Quero paz na minha cena.
Rosa.
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